As leis brasileiras violentaram Rebeca Silva e ela foi fazer aborto num país que a acolheu. Por Nathalí Macedo

Rebeca Mendes Silva

No país da bancada evangélica, mulheres que engravidam sem que desejem ter um filho precisam tomar uma importante – e grave – decisão: parir, sem condições financeiras, físicas, psicológicas, familiares ou tudo isso junto, ou arriscar a própria vida em uma clínica clandestina que funciona muito longe dos olhos da lei.

Em um país decente, qualquer coisa que funcionasse longe dos olhos da lei seria indesejável. Mas não estamos em um país decente, estamos no Brasil. Por aqui, as nossas leis nos violentam –  e nos resta, assim, o que funciona longe de seus olhos.

As leis brasileiras violentaram Rebeca Mendes Silva que, com nove semanas de gestação e seu processo para autorização legal do aborto abarrotado em uma das mesas empoeiradas do judiciário brasileiro – como outras centenas de processos -, resolveu fazer o procedimento legalmente na Colômbia.

Eureka!

Se as leis do meu país me violentam, vou a outro país cujas leis me acolham: é uma ótima, mas lamentável ideia, como o vagão rosa no metrô.

Acaso não houvesse assédio, não haveria necessidade de um vagão exclusivo para mulheres no transporte público.

Acaso não houvesse bancada evangélica, Rebeca não precisaria ter viajado até a Colômbia para concretizar seus planos relacionados unicamente ao seu próprio corpo e à sua própria vida; acaso não houvesse bancada evangélica, mulheres não precisariam escolher entre parir e morrer; acaso não houvesse a maldita bancada evangélica, não teríamos, todas, a pungente certeza de que ser mulher é difícil, ser mulher latino-americana é difícil, mas ser mulher brasileira é dificílimo.

Para ser específica, o Brasil é o segundo pior país da América Latina para se nascer menina.

Mas nós nascemos, crescemos e eventualmente engravidamos – e temos que recorrer ao autoexílio diante do assassino conservadorismo de nosso país.

Imagina se a moda pega: cada vez mais mulheres grávidas – que não querem estar grávidas – migrando para países menos caretas que já compreendem (alô, Brasil século XXI!) que a vida da mulher é mais importante que um embrião fecundado.

A questão é que a maioria das mulheres processadas por aborto no Rio de Janeiro, por exemplo, é negra e pobre. Fora as que não foram processadas porque não foram descobertas. Fora as que não foram processadas porque estão mortas.

Convenhamos: aqui ou na Colômbia, mulheres ricas sempre abortaram. Lá, com segurança e dentro da legalidade; aqui, pagando os rins e correndo risco de vida.

A criminalização do aborto vitima um grupo específico: as mulheres pobres, frequentemente negras. Enquanto isso, o Estado protege fetos.

A gente não precisa de autoexílio: a gente precisa de leis que nos protejam – ou, no mínimo, que não nos matem.

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