As lições do show no Olympic Stadium

Se o Brasil quer abrir/fechar os Jogos de 2016 bem, deve aprender com a Inglaterra

Eles colocaram o ganhador do Oscar de 2012 Danny Boyle para cuidar da cerimônia de abertura

Eles fizeram do gramado uma bandeira da Inglaterra na cerimônia de encerramento dos Jogos Olímpicos de Londres. E, perto do final, nós a pintamos de verde e amarelo, no momento em que a cidade-sede abre espaço para uma canja da próxima.

Mas quem são eles e quem somos nós?

O diretor da festa de abertura foi Danny Boyle, ganhador de 2 Baftas e 1 Oscar por ter dirigido filmes como Trainspotting, Quem Quer Ser Um Milionário 127 Horas, entre outros.

O diretor da festa de encerramento, o menos célebre mas claramente tão capaz Kim Gavin, é especialista em eventos públicos. Dirigiu o Concerto Para Diana, o evento de abertura do Ryder Cup (algo como a Copa do Mundo do golfe) e também uma turnê da boy band britânica Take That, com elementos circenses, fechada com um show num Wembley lotado segundo o The Daily Telegraph.

Do nosso lado, Cao Hamburger, um bom cineasta, e Daniela Thomas, roteirista do filme Abril Despedaçado. A diferença das credenciais não parecem, mas são grandes. Enquanto Boyle é um dos maiores cineastas de seu país, Cao não é. É bom, não me entenda mal – não é um fora de série como é Boyle. Mas a diferença de credenciais é pequena se notarmos a diferença de capacidade de fazer um espetáculo.

Durante o show inglês, grande parte dos maiores ícones da cultura local lá estavam representados, em pessoa, em holograma, ou apenas musicalmente. John Lennon, Liam Galagher, Jesse J, Fatboy Slim, Spice Girls, Queen, The Who, entre outros.

Não foi perfeito. Annie Lennox, ex-vocalista da icônica Eurythmics, cantou uma música monótona quando poderia ter cantado Sweet Dreams. Para compensar, ela cantou num cenário espetacular com um navio fantasma. A participação da boy band Take That é também questionável, e claramente coisa de empresário – acontece em todo lugar, mas ao menos ali, é minoria esmagadora.

Mas, bem. Foi um espetáculo longo. Havia tempo, havia margem de erro. E mais importante: o país foi representado nas cerimônias. Lá estavam os maiores e melhores, de todas as gerações, e dentro de uma gama de estilos. Tínhamos bandas, cantores, rappers, DJs, comediantes.

Mandamos BNegão para o Olympic Stadium; cadê Gilberto Gil, ou Gal Costa, ou Marcelo D2?

Agora veja, se você tem John Lennon de um lado, quem há de estar do outro? Tom Jobim? Chico Buarque? Roberto Carlos? Caetano Veloso? Gal Costa? Gilberto Gil? João Gilberto? Rita Lee? Os Mutantes? Sei lá, a Daniela Mercury, o Marcelo D2?

Mas nós tínhamos no palco BNegão, Seu Jorge e a Marisa Monte. Tínhamos (e isso até parece piada) índios com cocares de luz que andavam curvados sabe-se lá por quê. Pareciam andar como macacos (eu nunca vi índios que dançassem daquela forma, mas não sou profundo conhecedor da cultura indígena).

A escolha do repertório foi boa. Começou em Villa Lobos, passou por Chico Science e acabou no Gil. Mas por que Gil não cantou? Ele representa infinitamente mais a cultura brasileira genuína do que os três que lá estavam juntos.

Um outro dado, que aumenta a diferença entre os shows, é que a apresentação brasileira foi curta. É muito mais fácil fazer uma apresentação curta. Você coloca só o chantilly, o melhor do melhor.

Talvez nessa apresentação, a coisa mais representativa do Brasil tenha sido a política. Quando digo isso, quero dizer o nosso jeito político de ser. Não acredito que ninguém que estava lá, incluindo o Cao, estava por ser o melhor possível para o trabalho. Só o Pelé e o Gari sorridente, que dança legal e tem uma presença de espírito muito bacana. De resto, parece truque de empresário. “Vamos colocar o BNegão para cantar Chico Science?”

Clara Nunes é uma grande alusão. Para um show de 2 horas, talvez. Não de 10 minutos. Num evento com 30 atrações, como será o show nas próximas Olimpíadas, a Marisa Monte e o Seu Jorge talvez, quem sabe, com muita força, pudessem estar.

Mas antes de pensar neles e até na Clara Nunes, temos que falar na Carmem Miranda, raios. No Mário Quintana, no Manoel Bandeira. Em Portinari, em Tarsila do Amaral. Em Tom, Roberto e a turma já citada lá em cima.

Também temos, para a torção de nariz de boa parte das pessoas, que falar de Paulo Coelho, Michel Teló, Funk Carioca, axé – temos que tomar muito cuidado com hábitos elitistas para não nos tornarmos a MTV (claro que tampouco devemos nos tornar o Raul Gil, mas estas pessoas representam o que grande parte, talvez a maior, dos brasileiros gostam. E isso deve ser respeitado).

O melhor da cultura brasileira deve ser mostrado, como a bateria da mangueira

Temos que ter Filhos de Ghandi com sua roupa clássica e seu turbante de toalhas. Temos que ter a bateria da Mangueira, ou da Portela, ou da Vai-Vai, ou de quem for melhor – eis o mais importante.

Temos que mostrar as escolas de samba – mas não um desfile tradicional. Seria monótono para este tipo de evento. Mesmo assim, precisamos de, por exemplo, figurinos e carros alegóricos desenhados por grandes carnavalescos. Pelos gênios do carnaval.

Temos que ter a Ivete Sangalo, o Luan Santana, o Olodum tocando Michael Jackson. Os Tropicalistas. O Galo Da Madrugada. O Balé Popular do Recife, com seu frevo. Ou o Balé Municipal de São Paulo, fazendo balé mesmo.

Temos que falar de Santos Dummont. Temos que falar de Noel Rosa, de Cartola, de Jorge Amado, de Chico Anysio, dos Trapalhões. Do Chaves, por que não? É criação mexicana, mas se tornou mais parte da nossa cultura do que muita coisa brasileira. Da Turma da Mônica, da Emília.

Temos que falar de Herchcovitch, de grafite, de favela, de feijoada. Temos que ter Jorge Ben no palco. Temos que ter um holograma do Tim Maia (ou o Tiago Abravanel, que o representa com muita dignidade). Temos que falar de futebol e do Pelé, claro, mas também do João do Pulo, da Maria Esther Bueno, do Guga, do Oscar, da Hortênsia, do Senna, do José Roberto Guimarães. Precisamos de Walter Salles ou Fernando Meirelles dirigindo o espetáculo.

Tudo isso antes de o Seu Jorge sequer considerar entrar no palco.

Nosso nacionalismo dementador, puxado historicamente pela Globo e copiado pela Record, nos mantém um país isolado em nossa língua pouco difundida. Estavam falando que a apresentação brasileira foi boa. Os mesmo que disseram que fomos bem nos jogos (e o fato de termos ido mal não diminui os atletas – o buraco é muito mais embaixo -, mas que fomos, fomos. Nós sabemos disso).

Não temos o hábito de buscar referência. Mas nos foi colocada uma no colo. Eu gostaria de acreditar que não vamos perder a oportunidade de aprender a fazer um evento tão divertido, dinâmico, e representativo da cultura de um povo.

Os ingleses colocaram seus ídolos como o The Who no palco e nós, não

 

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