As notícias falsas e o pânico moral. Por José Eduardo Mendonça

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O surgimento do Twitter acabou se tornando uma mina de ouro para os jornalistas. Com 500 milhões de tweets novos por dia, e 310 milhões de usuários ativos por mês, é uma formidável biblioteca de fontes citáveis. E estão lá para serem exploradas e republicadas.

As hashtags se tornaram uma benção para publicações online. Sites como o BuzzFeed fizeram nome editando tweets de adolescentes para produzir matérias irrelevantes. Mas está também cada vez mais comum ver tweets citados em artigos da CNN, ou do New York Times, que podem dar a impressão de terem sido produzidos por um repórter na rua, e não por alguém meramente sentado na frente de um computador.

Há um problema ético básico com o estilo do BuzzFeed de selecionar e republicar tweets. Este modelo, que simplesmente reembala memes, tiradas e observações criadas por usuários do Twitter, lucra com o que as pessoas escrevem sem compensá-las (e muitas vezes sem nem lhes dar crédito), diz a Current Affairs.

Mas o jornalismo baseado no Twitter é perturbador por razões que vão muito além de questões de propriedade intelectual e atribuição. Usar a ferramenta como um prisma através do qual examinar e reportar o mundo cria ma impressão estreita e distorcida da realidade.

Jornalistas, isolados em redações, confirmam seus pontos de vista já existentes, e se isolam ainda mais da experiência ordinária. Como consequência, o mundo relatado pela imprensa é aquele que existe no Twitter, e não como ele existe de verdade.

O Twitter permite a pessoas seguir apenas aqueles cujas opiniões desejam consumir, e a receber elogios instantâneos de seus próprios seguidores. É um lugar maravilhoso para reafirmar suas crenças, e é tão fácil fazer isso em uma plataforma destinada a moldar a informação recebida naquilo que você quer ouvir, ou aquilo com que sabe que vai concordar.

O Twitter também tem seu componente igualitário. Em sua melhor característica, é anti-elitista, dando uma plataforma àqueles que antes não tinham voz. Algumas destas pessoas (como os neo-nazis) tinham sido relegados à margem por boas razões, mas outros foram excluídos do discurso dominante porque ele tende a ser arrogante, ditado por corporações e exclusivo. Mas ao amplificar novas vozes, não parece expandir uma visão de mundo.

Comparar-se aos outros no Facebook pode causar depressão

Para a maior parte de seus quase 2 bilhões de usuários no mundo, a mídia social trouxe diversos benefícios. Tornou a comunicação mais fácil, as culturas mais próximas e o mundo mais pequeno. Além disso, plataformas como o Facebook podem ajudar pessoas com doenças mentais, com grupos de apoio.

No entanto, há lados negativos em seu uso. Com frequência, as pessoas se sentem estressadaas, agitadas e ansiosas ao verem seu feed. Na verdade, plataformas como o Facebook disparam efeitos negativos o bastante para o desenvolvimento de depressão e desordens de ansiedade.

De acordo com uma pesquisa publicada recentemente, feita por David Baker e Guillermo Perez Algorta, da Universidade de Lancaster, na Inglaterra, há uma forte relação entre o uso da mídia social e o surgimento da depressão.

O estudo examinou ligações entre as duas coisas em literatura científica de 14 países diferentes, envolvendo 35 mil pessoas de 15 a 88 anos. E mostrou que elas têm maior probabilidade de desenvolver uma doença mental quando se comparam a outros no Facebook do que quando o fazem na vida real.

O trabalho, segundo a Nature World News, sugere que são atingidos porque a mídia social permite que pensem demais ou ruminem sobre as comparações. Além disso, afirmam seus autores, as postagens frequentes em sites como Facebook agravam o quadro.

Mas há meios de evitar o estresse. De acordo com uma matéria do Huffington Post, escolher seus amigos com cuidado pode abaixar os níveis de ansiedade. Acrescente apenas pessoas que conheça na vida real. E, quando tiver tempo, delete aqueles que o fazem sentir intranquilo.

As notícias falsas e o pânico moral

Pânico moral é o termo usado por sociólogos para um surto em massa, e é em geral tipificado por campanhas de medo na mídia que identificam os que se “desviam” das normais sociais. Caso não seja controlado, este pânico pode fazer mais mal do que os denunciados se a reação ao que fizeram for exagerada. Este é um aspecto perigoso da divulgação de notícias falsas.

A boa notícia é que estes episódios tendem a passar rápido, com o desvio da atenção pública para outros assuntos. Mas o pânico parece ter pernas, comenta Jack Shafer no Politico, o que quer dizer que alguém pode se machucar antes que ele passe.

Gente mais sensata e observadores mais calmos têm elogiado os planos de Mark Zuckerberg, do Facebook, de censurar os feeds de notícias de usuários para eliminar notícias falsas. Mas será que queremos mesmo alguém agindo de cima para baixo para determinar o que é verdadeiro ou falso? Não ficaríamos revoltados se o dono de uma banca de jornal resolvesse decidir colocar nela o que considera inapropriado?

As notícias falsas existem há séculos. Sua audiência lembra as pessoas que pagam para ver shows de mágica. Sabem que algumas coisas que vão ver são genuínas, mas sabem também que outras são feitas para parecerem reais mas não são. Como uma mulher cortada ao meio, ou um ser levitando.  Ver algo fantástico que é quase verdadeiro agrada quase todo mundo. Talvez as pessoas gostem de ser enganadas.

Do ponto de vista de um economista, as notícias falsas são um problema do lado da demanda. Se os leitores não fossem tão determinados a clicar manchetes sensacionalistas que levam a sites de reputação dúbia ou desconhecida, e continuassem fazendo isso o tempo todo, as notícias falsas seriam logo extintas. Mas a prevalência indica que o mercado está fornecendo apenas a excitação barata e estúpida que alguns leitores desejam.

Nem todas as noticias falsas se destinam a distorcer a verdade. Mas isto é importante demais para ser deixado na mão de Zuckerberg que, segundo ele mesmo, não é um árbitro da verdade. Quando mais ultrajante e partidária uma matéria for, maior a chance de ser partilhada, viralizar e chegar ao grande público.

Primeiro, precisamos aprender a viver com um certo nível de notícias falsas sem reagirmos em excesso. Segundo, precisamos instruir leitores sobre como flagrá-las e evitá-las, o que muitas publicações já estão fazendo. De qualquer forma a questão persiste porque a natureza humana persiste.