As outras fraudes do Banco Master reveladas em operação com terrenos de Ronaldinho Gaúcho

Atualizado em 5 de fevereiro de 2026 às 7:31
O ex-atleta Ronaldinho Gaúcho. Foto: Sergei Savostyanov/TASS

Nesta semana, dois terrenos pertencentes ao ex-jogador Ronaldinho Gaúcho entraram no radar das investigações sobre o Banco Master após serem usados como lastro para a captação de R$ 330 milhões por uma empresa que, na sequência, direcionou os recursos a fundos ligados à própria instituição financeira. Segundo a defesa do ex-atleta, ele não tinha conhecimento da emissão dos créditos e a operação imobiliária que previa o uso das áreas já havia sido cancelada.

De acordo com informações do Globo, apurações do Ministério Público Federal indicam que o Master operava por meio do Fundo City 02, do qual era o único cotista, concedendo empréstimos a pessoas jurídicas. Na prática, essas empresas repassavam quase todo o dinheiro a fundos administrados pela gestora Reag, que, assim como o banco, acabou liquidada pelo Banco Central.

Parte das operações tinha início com a emissão de Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRI), títulos de renda fixa lastreados em créditos do setor imobiliário, como parcelas de financiamentos ou aluguéis futuros. A lógica do instrumento é antecipar recursos para a empresa emissora, enquanto investidores recebem juros pelo capital aplicado.

Em agosto de 2023, a Base Securitizadora realizou a emissão de R$ 330 milhões em créditos para a S&J Consultoria. O lastro incluía notas comerciais voltadas ao desenvolvimento de terrenos em Porto Alegre, entre eles duas áreas registradas em nome de Ronaldinho Gaúcho. Advogados do ex-jogador e sócios do projeto afirmam, no entanto, que o negócio não avançou.

A defesa do ex-atleta informou que, em 2021, houve negociações com as empresas União do Lago e Melk, mas as tratativas foram interrompidas por falta de licenças ambientais e pendências de IPTU. O advogado de Darci Garcia da Rocha, sócio no empreendimento original, também disse desconhecer a emissão dos CRIs e a destinação dos recursos.

“As parcerias imobiliárias com o grupo do Ronaldinho não foram para frente por desacordo comercial”, afirmou Maurício Haeffner, ressaltando que não houve injeção significativa de recursos nos terrenos.

Fachada do Banco Master. Foto: reprodução

Investigações do Banco Central apontam que outras empresas adotaram dinâmica semelhante: emitiam CRIs ou instrumentos equivalentes e, em vez de investir nas obras, realocavam os valores em fundos ligados ao Master e à Reag. Ao registrar esses papéis como ativos, o grupo financeiro inflava indicadores patrimoniais, aumentando artificialmente a percepção de solidez e capacidade de alavancagem.

Para os investigadores, a estratégia buscava atrair investidores e reforçar a credibilidade do banco, mesmo com recursos circulando em um circuito fechado, sem geração de valor real. Assim, os terrenos funcionariam apenas como “fachada” para a captação, enquanto permaneciam vazios e sem obras.

As empresas envolvidas são investigadas pela Polícia Federal e foram alvo de mandados autorizados pelo ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal. Segundo o magistrado, o volume de CRIs sob suspeita emitidos pela Base Securitizadora pode chegar a R$ 1 bilhão.

A Base foi criada por César Reginato Ligeiro, que deixou a empresa em 2022. A S&J surgiu em 2021, tendo como sócia a Land I, também controlada por Ligeiro.

Atualmente, ele segue como administrador da OCC S.A., empresa que integra a sociedade da S&J. Procurado, Ligeiro declarou que atua no mercado imobiliário desde 2010 e que sempre operou “em conformidade com a legislação e as normas aplicáveis”, afirmando que eventuais questionamentos devem ser analisados nos âmbitos competentes.

Augusto de Sousa
Augusto de Sousa, 31 anos. É formado em jornalismo e atua como repórter do DCM desde de 2023. Andreense, apaixonado por futebol, frequentador assíduo de estádios e tem sempre um trocadilho de qualidade duvidosa na ponta da língua.