As palavras de Marco Aurélio Mello, do STF, para Aécio valem para Geddel: “brasileiro nato, chefe de família, carreira elogiável”. Por Kiko Nogueira

“Brasileiro nato, chefe de família, com carreira política elogiável”

 

O segundo artigo mais imbecil sobre a crise política — o primeiro é de um lobista metido em operação da PF chamado Mario Rosa — é de Carlos Heitor Cony.

Imbecil, pero revelador.

Cony resume numa crônica 500 anos de Brasil, numa defesa canalha de Aécio Neves, Sérgio Cabral e Rodrigo Maia.

Ele escreve que “sem entrar no mérito pessoal, político e administrativo, sinto-me obrigado a realçar três personagens que estão na boca das matildes nestes tempos de delações, propinas e acusações, nem todas provadas. São relativamente jovens e têm em comum uma ascendência brilhante”. 

“Não sou amigo pessoal de nenhum deles, mas tive e tenho respeito pelos nomes que herdaram de seus pais”, ressalta.

Aécio, diz ele, pode ser considerado seu primo. “Temos um avô em comum”, revela. Cony torce para que o mineiro possa recuperar “o prestígio político e a simpatia que sempre teve.”

Os meninos do clube de Cony foram flagrados cometendo os mais diversos crimes. O pai do ex-governador do Rio, aliás, renega o filho.

Mas para Cony são travessuras. A rapaziada tem autorização para fazer o que faz. Eles têm licença para matar porque são de famílias boas.

Cony produziu uma versão sub literária da sentença do ministro do STF Marco Aurélio Mello dando de volta para Aécio Neves a cadeira no Senado.

Para Marco Aurélio, Aécio, aquele mesmo que foi flagrado acertando propina com um empresário bandido — sem contar a vida pregressa em Minas —, é “brasileiro nato, chefe de família, com carreira política elogiável”.

Continua: “Deputado federal por quatro vezes, ex-presidente da Câmara dos Deputados, governador de Minas Gerais em dois mandatos consecutivos, o segundo colocado nas eleições à Presidência da República de 2014 – ditas fraudadas”.

Aécio tem “fortes elos com o Brasil”.

Acima de qualquer suspeita, enfim.

Geddel Vieira Lima pertence a essa casta. É um coronel baiano cuja família sobrevive da rapinagem naquele estado há décadas. Tradicionalíssimos.

Formado em administração de empresas pela Universidade de Brasília, é natural de Salvador. Iniciou-se como assessor do pai, o ex-deputado Afrísio Vieira Lima, morto neste ano.

Na década de 80 foi nomeado diretor do antigo Banco do Estado da Bahia pelo então governador Antônio Carlos Magalhães, cuja família era aliada à dele. Pouco tempo depois foi demitido por ACM, acusado de repassar informações privilegiadas para investidores.

Em 1990, filiou-se ao PMDB, partido pelo qual foi eleito cinco vezes deputado federal. No Congresso, foi líder de bancada, presidente da Comissão de Finanças e Tributação e primeiro secretário da Mesa Diretora.

Presidente do PMDB na Bahia, foi um dos que se manifestaram pelo rompimento do partido com o governo Dilma. O irmão, deputado Lúcio Vieira Lima (PMDB-BA), é suspeito de receber R$ 1 milhão da Odebrecht.

Aos 57 anos, o braço direito de Temer é alvo de denúncias desde os 25. 

A certeza de que fazia parte da patota do Cony, a dos inimputáveis, fez com que Geddel delinquisse até o fim.

Como cravaria o ministro Marco Aurélio Mello, ele é “brasileiro nato, chefe de família, com carreira política elogiável”.

Um amigo que atualmente mora no Rio me falou que cruza com Carlos Heitor Tony em sua corrida diária na cenográfica Lagoa Rodrigo de Freitas. 

O velho desce do prédio de sunga preta, numa cadeira de rodas, e fuma um charuto ao sol. É escoltado por dois cuidadores, um negro e uma negra altos e fortes, solenemente ignorados até a hora em que voltam a ser úteis.

As babás sabem que ali está um cidadão de bem que precisa ser preservado da Justiça.

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