As pedras no meio do caminho do Partido dos generais. Por Jefferson Miola

Bolsonaro | Sérgio Lima/AFP/02-01-2019

Publicado originalmente no blog do autor:

No meio do caminho tinha uma pedra

Tinha uma pedra no meio do caminho

Tinha uma pedra

No meio do caminho tinha uma pedra

Nunca me esquecerei desse acontecimento

Na vida de minhas retinas tão fatigadas

Nunca me esquecerei que no meio do caminho

Tinha uma pedra

Tinha uma pedra no meio do caminho

No meio do caminho tinha uma pedra.”

Carlos Drummond de Andrade

Com a eleição do Bolsonaro, lançado por eles no pátio da AMAN [Academia Militar das Agulhas Negras] ainda em 29 de novembro de 2014, quatro anos antes da eleição presidencial de 2018, o Partido dos generais acalentava planos pretensiosos.

Planejavam tomar o poder e nele permanecer por longo período; pelo menos por muito mais tempo que os 21 anos em que usurparam o poder civil da última vez, durante a longeva ditadura que durou de 1964 a 1985.

A atual geração dirigente das Forças Armadas é formada nas turmas da AMAN dos anos 1971/1980. É um pessoal originário do porão fétido do velho regime e fermentado numa cultura conspirativa e autoritária, que possui forte ambição política.

Consideram-se, ironicamente, predestinados a conduzirem os destinos da Nação, uma vez que consideram que as elites civis do país são incapazes de cumprir tal missão, sobretudo com “decência e pureza” [sic].

A figura emblemática desta geração militar é Silvio Frota, o general que em abril de 1977 tentou perpetrar um golpe contra Geisel para impedir até mesmo a abertura lenta, gradual e segura defendida pelo penúltimo ditador daquele regime.

O ídolo de vários dirigentes desta geração que sublima a tortura é ninguém menos que o coronel-torturador-assassino Carlos Alberto Brilhante Ustra.

No horizonte do plano de poder, o Partido Militar encartava a possibilidade de implantar uma “ditadura democraticamente eleita” para se perpetuar no poder.

Afinal de contas, eles se gabam do “retorno” ao poder por meio da “eleição democrática” do Bolsonaro – mesmo que, na verdade, tenha sido uma eleição fraudada por meio da interferência do Alto Comando do Exército e da gangue da Lava Jato no processo farsesco que impediu a participação do ex-presidente Lula no pleito.

Tudo andava bem para o plano dos militares até que a pandemia da COVID surgiu como uma pedra no caminho. Apostaram se tratar de um fenômeno passageiro, que logo seria superado.

Em nome desta aposta, desprezaram as previsões da OMS e sabotaram as recomendações científicas nacionais e internacionais. Apostaram, inclusive, nas profecias de charlatões que prediziam que o número de óbitos não atingiria sequer a cifra de um milhar.

Na visão simplista e simplória deles, bastava aboletar um general “gênio da logística” no Ministério da Saúde que tudo estaria resolvido no menor prazo possível. Por isso, colocaram o paspalhão general da ativa do Exército Eduardo Pazuello no cargo de ministro da morte.

Com a aposta errada, Bolsonaro e os militares se tornaram reféns do próprio erro. E, com a errada e deliberada opção Pazuello, o genocídio de Manaus e a espiral do morticínio foi a consequência natural.

Hoje o país avança aceleradamente para as 500 mil mortes, sendo ¾ delas evitáveis, ou seja, juridicamente enquadráveis como homicídios decorrentes da criminosa opção governamental.

Na CPI do genocídio, Bolsonaro e o Partido dos generais estão no banco dos réus. As Forças Armadas, em especial o Exército, foram arrastados por seus comandos a esta situação vergonhosa e desonrosa.

Até 8 de março, quando o STF anulou as condenações ilegais do ex-presidente Lula, o Partido Militar reinava absoluto e prepotente; sentia-se inabalável no controle total da situação, pois com a tutela que exerciam sobre o judiciário mantinham Lula preso no cativeiro judicial do STF, ainda que liberto da Guantánamo de Curitiba.

O reconhecimento da suspeição do Moro e a anulação das condenações farsescas do Lula provocaram, entretanto, um abalo sísmico no projeto de poder do Partido dos generais.

Chegou a hora destes militares conspiradores e usurpadores do poder civil reconhecerem sua derrota e se recolherem às funções que, fossem eles profissionais e não conspiradores, jamais deveriam ter se afastado.

Como disse o relator da CPI Renan Calheiros, a diretriz é clara: “Militares nos quartéis, e médicos na saúde. Quando se inverte, a morte é certa. E foi isso que, lamentavelmente, parece ter acontecido”.

O projeto de poder dos militares fracassou. É chegada a hora de se recolherem aos quartéis. A repulsa ao seu papel é geral: da sociedade brasileira à comunidade internacional, a presença deles na arena na política é rechaçada.

 

 

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