As perguntas que Pedro Bial não fez. Por Moisés Mendes

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Originalmente publicado em BLOG DO MOISÉS MENDES

Por Moisés Mendes

Eduardo Leite segue na mesma toada, na tentativa de se livrar de Bolsonaro. Um dia depois da divulgação da entrevista a Pedro Bial, em que se declara gay, ele concedeu outra entrevista, desta vez à Fernanda Canofre, da Folha. Para reafirmar que estava certo em 2018 quando votou no sujeito que agora o ataca.

Abaixo, a íntegra da entrevista, com respostas de Rolando Lero, porque Fernanda Canofre fez as perguntas que Pedro Bial se negou a fazer.

Leite rebate Bolsonaro e o chama de imbecil após ataque homofóbico, mas defende voto de 2018 contra o PT

Governador gaúcho diz não ter tratado antes sobre sexualidade ‘porque não queria ser resumido como o candidato gay’

Fernanda Canofre

Na tarde desta sexta-feira (2), dia em que ocupou boa parte das manchetes no país e dominou os assuntos nas redes sociais, o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSDB), aguardava no aeroporto de Florianópolis um voo para Curitiba enquanto falava com a Folha por telefone.

Uma resposta do governador foi interrompida por uma pessoa que o abordou pedindo uma foto. “Prazer te conhecer. Que massa a tua entrevista, cara”, disse. A menção era à entrevista para a TV Globo na qual o governador gaúcho falou pela primeira vez abertamente que é gay, algo que ele diz nunca ter escondido.

No dia seguinte à transmissão, o WhatsApp de Leite ficou abarrotado de mensagens —550 não lidas, segundo ele. O tucano diz que esperava uma oportunidade que se mostrasse adequada para falar de sua orientação sexual. Com ataques homofóbicos crescendo à medida que vai se tornando um nome nacional, sentiu que o momento era esse.

O presidente Jair Bolsonaro reagiu à declaração de Leite nesta sexta e afirmou que o gaúcho estava usando a questão como “cartão de visita” para uma candidatura presidencial e que “ninguém tem nada contra a vida particular de ninguém, agora, querer impor seu costume, seu comportamento para os outros, não”.

À Folha Leite diz que o presidente é um imbecil. Ele falou ainda sobre ser um homem gay na política, ataques homofóbicos que já sofreu e 2022.

Como foi acordar com a repercussão da sua fala?

Especialmente emocionado com o tanto de relatos que tenho recebido de pessoas, manifestando carinho, me cumprimentando, mas além de todas as manifestações de carinho de pessoas que gostam de mim, de adversários que me respeitam e que manifestaram também o seu apreço pelo gesto que fiz, mas especialmente me tocou e me tocam as inúmeras mensagens de pessoas, por exemplo, uma delas com mais de 50 anos, que é homossexual, me disse como a vida dela teria sido mais fácil se quando ela tivesse 18 anos um governador tivesse feito isso.

Aí você projeta o quanto isso pode estar tocando na vida de outras pessoas que aproveitam essa oportunidade para resolver os seus conflitos, suas próprias questões e se sentirem seguras para conversar com suas famílias, seus amigos. Outra pessoa me relatou ter se reconciliado com um irmão, com quem não conversava mais por conta da sexualidade.

Estou na política pelo que eu entendo que posso fazer para tocar a vida das outras pessoas. A minha orientação sexual toca na minha vida, mas na medida em que sou governador e alcancei alguma visibilidade, declarar a minha orientação toca também na vida das pessoas. Isso me emociona, me sensibiliza.

Estou feliz, independentemente dos resultados que isso proporcionará do ponto de vista eleitoral, positivos ou negativos, me sinto realizado por ter de alguma forma colaborado para liderar em uma direção que eu entendo que é a correta, que é da igualdade, do respeito.

O senhor falou que nunca escondeu quem é, sua orientação, mas era um assunto que o senhor não tratava. O que o levou a falar agora?

Em um primeiro momento, teve a minha própria aceitação comigo mesmo. Eu me aceitei gay quando tinha 25 anos de idade. Fui criado nessa sociedade que me fez acreditar que isso é errado. Eu, como qualquer outro ser humano nessa condição, também tive os meus questionamentos até me aceitar.

Eu já estava na política, já era vereador em Pelotas. Isso foi sendo deixado para não falar, não tratar desse tema.

Eu nunca tive medo que me trouxessem essa questão. Até aconteceu, quando eu era vereador e estava para me lançar candidato a prefeito, um assessor me falou que na Câmara diziam que eu, em algum momento, desistiria, porque era gay e teria uma foto minha beijando outro homem. Falaram isso ao meu assessor, para tentar me intimidar.

Eu falei: primeiro lugar, essa foto não existe; se existir, não é um problema. Tive momentos, receber em dias de debates mensagens de números desconhecidos dizendo que iriam publicar foto minha com alguém, alguma foto comprometedora, tentando me gerar apreensão. Nunca atingiram o objetivo deles fazendo isso, porque era uma não questão.

Agora virou um tema, no Brasil de hoje, mas mais do que o tema da sexualidade eu quis trazer o tema da integridade. O Brasil carece de integridade — ser íntegro é ser por inteiro. No momento em que eu vou dando passos em direção a um projeto nacional, se intensificam ataques homofóbicos, com insinuações que eu teria algo a esconder.

Quero deixar claro que eu não tenho nada a esconder. Tantos outros políticos que escondem coisas erradas, mensalão, petrolão, “rachadinha”, superfaturamento de vacina. Ao me apresentar nessa inteireza, fico feliz de inspirar outras pessoas para que não cortem mais um pedaço de si, por conta de bullying pela orientação sexual.

Durante as eleições de 2018 o senhor foi alvo de ataques devido a sua sexualidade, com piadas e fotos de família tiradas de contexto. O senhor falou de outras campanhas com ataques. Como lida com isso?

Lamento profundamente esses ataques. Nunca me desestabilizaram porque, desde o momento em que eu me aceitei gay, nunca achei que fosse uma coisa errada, nunca me recriminei ou entendi que deveria me envergonhar.

Não tratei publicamente do tema porque não queria ser sintetizado, resumido como o candidato gay. Acho que uma grande colaboração que eu possa dar à causa da igualdade, da diversidade, é justamente por estar aqui, sendo reconhecido pelo que fiz até hoje na vida pública e ser gay. Espero que no futuro um candidato possa, desde o início, ser gay, e chegar onde eu cheguei. Que bom que a gente possa abrir caminhos, que não seja um obstáculo isso.

Como sua família e seu namorado reagiram à decisão de falar sobre essa questão abertamente?

Com absoluta tranquilidade. Tenho esse privilégio de ter ao meu lado pessoas que têm a mente e o coração abertos, então não foi nenhum problema. Sei que sou privilegiado, tantas pessoas sofrem agressões físicas pela sua orientação sexual, gays negros da periferia sofrem vários estigmas e agressões que não é nada comparável a qualquer sofrimento que eu tenho tido.

Sendo cotado como presidenciável, houve quem cogitasse sua fala como jogada para acenar à esquerda, a um eleitorado mais progressista. O senhor pretende ser um político que irá carregar essa bandeira?

Sempre defendi a causa LGBT, nunca precisei falar da minha sexualidade para defender. Quando era vereador em Pelotas, os organizadores da Parada LGBT queriam apoio público para fazer um seminário e eu fui o único que os recebeu, dei ajuda e fui à parada, sem tratar da minha orientação. Não é por minha causa própria, simplesmente acreditar que a diversidade nos torna como sociedade mais ricos. Vou continuar nessa mesma linha, defendendo como sempre defendi.

Outro questionamento foi o fato de o senhor, um homem gay, ter apoiado a candidatura de Jair Bolsonaro no segundo turno de 2018. O presidente tem um histórico de declarações homofóbicas desde os tempos de deputado. O senhor se arrepende desse apoio? Houve uma contradição?

Eu não declarei apoio. Apoio é pedir votos, é fazer campanha junto, isso eu não fiz. Eu declarei o voto, com uma crítica contundente, num vídeo que está na internet.

Saiu no programa eleitoral a minha crítica, que eu não me sentia representado naquele clima de ódio, que eu daria o voto na expectativa de que pudesse ser diferente do que o histórico dele apresentava, porque do outro lado estava o partido que tinha levado o Brasil a 14 milhões de desempregados, uma recessão econômica profunda e uma crise moral e ética gravíssima, com casos de corrupção comprovados e muito fortes.

Claro que a eleição do Bolsonaro foi um erro. Um erro que cometemos eu e milhões de brasileiros, mas que se deu em função de no outro lado haver um partido que errou na corrupção, errou na condução da economia. Estávamos diante de uma situação de escolher entre dois caminhos. Erramos. Mas não é sobre discutir erros do passado, é sobre construir caminhos para o futuro. Esse é o ponto objetivo para o Brasil.

Bolsonaro também comentou sua entrevista. O que o senhor tem a dizer sobre essa declaração?

O presidente é um imbecil. Onde está a tentativa de imposição de qualquer coisa para qualquer pessoa? Uma declaração sobre a minha orientação sexual. Não resta outra coisa a dizer senão que o presidente é um imbecil.

Hoje o senhor é um crítico ao governo dele, tendo assinado cartas de governadores na pandemia e levando ao STF os questionamentos que ele levantou sobre os gastos do seu governo.

Em que momento sua posição mudou?

A eleição do segundo turno é uma eleição de rejeição, você escolhe o que você não quer. A candidatura do Bolsonaro não tinha nenhuma expectativa que pudesse significar alguma coisa positiva, como eu esperava que fosse um governo, mas diante da outra alternativa, o PT voltar ao poder, parecia naquele instante algo muito ruim.

Restou, no momento em que Bolsonaro foi eleito, pelo bem do país, trabalhar para que desse certo. No início, apresentou medidas, retomando a reforma da Previdência, uma expectativa de modernização da economia conduzida pelo ministro Paulo Guedes, gerava expectativa de que pudesse ter algum elemento que gerasse crescimento econômico e emprego.

Ninguém tinha no script uma pandemia, como essa, que colocou nas mãos dos governantes tanta responsabilidade para salvar vidas. A liderança do presidente, não só ele se omitiu, como ele foi líder na direção contrária. Sua atuação na pandemia foi momento de revelação de caráter de crueldade do presidente, pelo seu absoluto desprezo pelas vidas humanas.

Senadores governistas na CPI da Covid defendem que os governadores deveriam ser chamados para prestar contas. O que o senhor acha?

Não há possibilidade de convocação por respeito ao pacto federativo e à estrutura constitucional que a gente tem.

Mas já deixei nas mãos do relator da comissão um relatório com toda a especificação de onde os recursos foram empregados. O Rio Grande do Sul tem a terceira menor taxa de excesso de óbitos entre os estados brasileiros. Estou absolutamente tranquilo com relação a forma como gerenciei a pandemia.

Como o senhor vê as denúncias levantadas nas últimas semanas na CPI, sobre a Covaxin e tentativa de cobrança de propina?

Graves, merecem rigorosa apuração, devem ser analisadas com profundidade para que, se forem comprovadas, seja dada a devida consequência aos envolvidos.

Qual a sua posição sobre o superpedido de impeachment de Bolsonaro apresentado nesta semana, assinado por partidos de oposição, mas também nomes da direita?

É um movimento legítimo diante das circunstâncias e que deve receber a análise, de acordo com a Constituição, do presidente da Câmara dos Deputados, à luz dos fatos que estão sendo apurados.

Mas qual a sua posição sobre o impeachment hoje?

O impeachment não pode ser banalizado, mas a Presidência da República também não pode ser banalizada. Tem fatos graves, merece a investigação e, eventualmente, se revelar inevitável, ser conduzido o processo de impeachment. Eu guardo cautela a respeito das minhas manifestações, porque sou governador para todos os gaúchos, a favor e contra, e estou dentro de uma relação institucional de governo.

O senhor disse que é um pré-candidato a pré-candidato. O que o instigou a pensar na Presidência, ao invés de tentar uma reeleição no Rio Grande do Sul?

A manifestação de deputados do meu partido. Não foi um movimento que eu tenha feito. Fui provocado por parlamentares do PSDB para que me apresentasse nas prévias e me sinto em condições de dar colaboração a partir da nossa experiência na gestão do Rio Grande do Sul, enfrentando dificuldades, mas equilibrando as contas do estado, abrindo espaço para investimentos.

Tradicionalmente, os presidenciáveis do PSDB são de Minas Gerais ou São Paulo. Há espaço para um tucano gaúcho?

Eu acredito nisso, por isso estou me lançando neste processo. Me sinto acolhido, estou no PSDB há 20 anos.

Qual a posição do PSDB hoje no espectro político? Qual deve ser a cara do partido nas eleições de 2022?

Uma agenda que reconhece a necessidade de modernização do Estado, de enfrentamento dos problemas crônicos da máquina pública, que podem ajudar a destravar o crescimento econômico, para uma taxa de crescimento de longo prazo mais forte e sustentável. De outro lado, uma agenda social, de inclusão, que combate à desigualdade.

As pesquisas indicam Lula e Bolsonaro à frente. Qual o espaço para a terceira via?

As pesquisas indicam também elevadíssimo nível de rejeição aos dois nomes. Então, a pesquisa, neste momento, tem que ser lida nas suas diversas informações, uma vez que não há candidaturas postas.

Mas para um candidato da terceira via ser viável, o que precisa?

Se conectar com o sentimento do eleitor. O eleitor sabe o que ele não quer, ele demonstra a partir do nível de rejeição que a gente vê nos dois candidatos que ele não quer mais do mesmo. Então, tem que poder representar o encerramento desse capitulo de divisão dos brasileiros. O Brasil não precisa ficar discutindo o que fomos e o que fomos, mas o que podemos ser e recuperar a esperança no futuro do país.

Em um cenário de segundo turno, entre os dois, quem o senhor rejeitaria, já que segundo turno é rejeição?

Nós trabalharemos para que esse segundo turno não aconteça, até o último momento. Se acontecer, discutiremos lá na frente, mas confio que não acontecerá.

Bolsonaro deve ir ao Rio Grande do Sul na próxima semana. Deve encontrá-lo?

Absolutamente nada previsto nesse sentido.

Há a previsão de uma motociata em Porto Alegre. Qual sua posição sobre um evento desses em momento de pandemia?

Acho que são movimentos legítimos para manifestação de apoio, mas questiono apoio a quê.

O senhor pretende acioná-lo, caso não sejam respeitados protocolos sanitários, como uso de máscaras?

Se for o caso, serão acionados por responsabilidade em função dos protocolos. Estão submetidos às mesmas regras que qualquer cidadão.

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