“As reformas são o embrião de uma guerra civil e a resposta vem na greve geral”: Requião fala ao DCM. Por Roberto de Martin

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O senador Roberto Requião, do PMDB do Paraná, acha que existe a possibilidade de uma guerra civil, motivada pela aprovação do pacote de maldades do governo federal, como as reformas da Previdência e trabalhista, esta última aprovada na Câmara na quarta-feira, 26/4, na Câmara.

Para ele, a resposta contra tais medidas, bem como contra a proposta de reforma da Previdência que avança no Congresso, virá hoje, na greve geral, que pode acender a fagulha da revolta.

Roberto Requião critica os que são contrários ao projeto de abuso de autoridade, relatado por ele e aprovado quarta pelo Senado. Aos que dizem que o texto pretende acabar com a Lava Jato, ele  argumenta que não tem nada a ver com a operação, mas sim contra as irregularidades praticadas, como conduções coercitivas sem convocação prévia.

O senador falou ao DCM sobre as reformas, a paralisação, a Globo, a Lava Jato e o crescimento de Lula nas pesquisas:

DCM – O que acha da opinião do procurador da Lava Jato Carlos Fernando, que disse que seu projeto de lei do abuso de autoridade, aprovado pelo Senado, seria uma vingança contra o judiciário e o Ministério Público?

Senador Roberto Requião – O projeto não tem nada a ver com a Lava Jato. Atinge os abusos praticados pela Lava Jato, as conduções coercitivas, por exemplo. Eles não podiam fazer isso daquela forma, a não ser que estejam cometendo ilegalidades que não tenhamos conhecimento. Rigorosamente não tem sentido a afirmação.

Ele deu uma opinião corporativista, muito nociva à evolução do Direito no Brasil. O corporativismo é uma manifestação coletiva do individualismo. Eles estão querendo se transformar num poder à parte, sem fiscalização, querem determinar seus próprios salários e fazer suas próprias leis, revogando, inclusive, o Poder Legislativo.

Têm uma visão “off road” da legislação. Querem sair da via larga, para trafegar pelas margens. E isso é ruim, para eles e para o direito brasileiro, porque mais cedo ou mais tarde essas ações serão anuladas pelos tribunais superiores. O abuso de poder, na verdade, protege a Lava Jato, evitando tantas irregularidades.

O que acha, afinal, da Lava Jato?

Abriu a tampa da caixa preta, mostrou o Brasil e seu sistema absolutamente corrompido. Mas a operação está equivocada por achar que prendendo corrupto vai resolver o problema do País.

Qual é a matriz da corrupção? Quem conduz a política brasileira? Quem tem dinheiro. Quem está com as grandes empreiteiras na mão, conduz o processo político. Aí, fazem delação premiada para os financiadores. Li num artigo, na internet, e concordo: é mais ou menos a mesma coisa do que fazer um acordo de delação com o Dom Corleone para poder prender o vendedor de cigarros falsificados, o contrabandista da esquina.

Porque os corruptos são os donos do capital, os que conduzem o processo. Estão desmoralizando a política, num sistema corrompido que havia se tornado “comum”, digamos. Mas isso não resolve o problema. Serão substituídos por outros corruptos.

Então, a Lava Jato, apesar de ser bem intencionada, não chegou a pensar em combater as raízes do problema, que é a influência do capital financeiro sobre a política, por falta de uma visão do todo. Colocaram na cabeça que prendendo os corruptos (quando na verdade estão negociando com os “Dom Corleones” para prender os vendedores de cigarro paraguaio da esquina), vão resolver o problema. Não. A operação Mãos Limpas, na Itália, prova isso. Subiu ao poder o Berlusconi, a corrupção voltou, pior.

O problema é o sistema eleitoral, que seleciona as pessoas pelo tanto de dinheiro que têm e dá preferência absoluta ao financiamento de campanhas caríssimas, as pessoas que financiam os interesses dos donos do dinheiro, corruptores do estado.

Não me peça uma solução ideal, mas o erro básico da Lava Jato é não conseguir entender o sistema de corrupção, tentando combater câncer com remédio para gripe. É um erro bem intencionado, de pessoas pouco informadas e mal formadas, do ponto de vista econômico, social e político.

Por que o senhor disse que o juiz Sergio Moro fumou erva estragada?

Isso é uma maneira popular de dizer que ele está sem raciocinar corretamente. O projeto contra o abuso de autoridade não tem nada a ver com a Lava Jato. O juiz Sergio Moro é bem intencionado, conheço ele, mas completamente equivocado por falta de formação econômica, sociológica e política.

Quando se trata do Lula, o juiz Sergio Moro também é bem intencionado?

Ele acha que o Lula é o problema, e o Lula é um efeito do processo, mas que foi muito bom para o Brasil, para o povo, num determinado momento. Veja qual a contrapartida a Lava Jato está conseguindo: fim das leis trabalhistas, das aposentadorias, privatização da Cedae, um governo que acredita que a Petrobras não tem função social, que atende apenas aos interesses do mercado financeiro, como disse o presidente Pedro Parente.

Sendo que o petróleo é o sangue do desenvolvimento de qualquer país, ontem e hoje, e amanhã ainda.

Imagina esse cara presidindo a Cedae, companhia de água e abastecimento do Rio de Janeiro, privatizada. O povo pedindo esgoto e ele respondendo que a empresa atende aos interesses de seus acionistas, e não aos da população. É possível isso? É de uma estupidez ideológica. E é isso que estamos vivendo no Brasil.

Então, dizer que a lei contra o abuso de autoridade prejudica as investigações seria uma confissão de que eles estão agindo errado nos procedimentos? Não querem lei? Acho que o trabalho da Lava Jato é bom para mostrar o que acontece nos bastidores, mas querer a sacralização do Ministério Público e do judiciário, não dá.

Por que a Globo é critica ao projeto de abuso de autoridade?

Jogo de momento, para conseguir audiência, garantir seus interesses. Eles estão num momento em que o governo está na mão deles, Globo. O dinheiro da mídia é comandado pelo capital financeiro.

Tudo o que eles querem é manter esse clima para aprovar as barbaridades que estão aí. A Câmara aprovou quarta (26) o retrocesso das leis trabalhistas, acabaram com a lei do trabalho no Brasil. Décadas de avanço social.

Uma verdadeira loucura, e eles estão acelerando essas pautas, Globo em conjunto com o governo Temer. Agora, se eles querem saber, na verdade, qual a popularidade deles, é a mesma que a do Temer, 4%.

Recentemente, o senhor discutiu no Tweeter com a repórter Andréia Sadi, da Globo. O que aconteceu?

Ela e a Globo falaram em tom pejorativo sobre a minha visita ao José Dirceu. “O relator do projeto contra o abuso de autoridade, Roberto Requião, conversou com José Dirceu na prisão”, como se isso fosse algo negativo.

Eu visitei, conversei com o José Dirceu, com quem mantenho relação, como converso com o Ronaldo Caiado (DEM), com o José Serra (PSDB), com o Aécio Neves (PSDB) e com todos os senadores. Eu sou político. E vou visitar na prisão os Marinho também. Espero que, se eles forem presos, que seja logo.

Andreia Sadi segue o que os donos da Globo dizem, o que os patrões mandam. Ela lê teleprompter. E outra, se um cachorro te morder, você deve bater no dono do cachorro, não no cão.

Por que o senhor disse que vai visitar os Marinho na prisão?

Disse que se eles forem presos — o que, espero, aconteça logo, porque crimes existem vários, pelo que sei — farei uma visita filantrópica. Talvez, para colaborar para a redenção deles, que sonegaram tanto e fizeram tanto mal ao Brasil.

Como pode ser dada a resposta para a aprovação da chamada reforma trabalhista?

Aquilo é o embrião de uma guerra civil, uma infâmia, que não foi discutida. Acho que a resposta para aquilo vem na greve geral. É o fim do estado social. E a igreja atendeu ao pedido do Papa, que disse que o capital é bom quando produz emprego, bens, serviços e dá salário pra o povo viver. Mas não pode comandar o mundo. Aquilo é uma proposta do dinheiro. Não tem outro termo senão “infâmia”.

Ex-amigos

O que acha do João Doria dizer que os servidores que faltarem ao trabalho por conta da greve terão o ponto cortado?

É o mesmo João Doria que liberou os ônibus outro dia, quando teve manifestação a favor dos interesses dele. Ele quer ser um “Trumpzinho” tropical. Depois do que fez com a Soninha, entendi que o que ele quer é virar um “Trump tropical”. O homem que demite, que faz e acontece.

Mas é o Doria, filho do ex-deputado nacionalista Doria pai, filho do ex-presidente da Embratur, do Doria que veio de fazer ligação entre empresários e políticos etc. o Doria é um fenômeno passageiro. Muito bom que ele tenha sido eleito prefeito já, porque elimina a possibilidade de surgirem outros Dorias.

Como explica o Lula, que quanto mais apanha, mais cresce?

É um fenômeno que atinge a população, que muitas vezes não tem noção do que acontece, mas percebe que sua vida piorou depois que o Lula saiu do poder. O período do Lula foi de abundância para os mais pobres, que começaram a fazer três refeições por dia etc., e o povo, depois, viu que todos esses caras estão envolvidos com corrupção. É o sistema.

Claro que o Lula cresce. Ele foi bom para a população, que começou a andar de avião, a ser bem vista lá fora. Era o país que mostrava ao mundo que é possível crescer. Desenvolver-se e distribuir riqueza.

Óbvio que houve equívocos, o Lula não conseguiu lidar com as vacas gordas das commodities, não viabilizou um projeto de desenvolvimento, mas tem empatia com a população. O que não pode também é achar que ele é santo. Ninguém é. Como eu e você, tem defeitos e qualidades. Inteligente, mas sem condições de ver a política econômica internacional naquele momento. Mas está se desenvolvendo, melhorando.

Lula e Requião em 2018?

Eu sou do PMDB, ele é do PT.

Mas tem chance?

Quer que eu diga que eu sou um soldado da democracia, que se convocado atenderei ao chamado? Não me furtarei à batalha? Não. Estou colaborando com o processo e quero que o Brasil saia fortalecido, como outros países saíram em outras ocasiões.

E aqueles que dizem que tirar o Temer, agora, é pior?

Esses devem estar gostando de todo o desmonte. Sou a favor de eleições gerais, para presidente da República e Congresso. Claro que tem de haver mudanças no sistema de financiamento. Mas sou a favor.

 

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