As revistas femininas são inimigas das lésbicas

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Como o tema da semana é a Parada do Orgulho LGBT, nada mais justo que dar voz aos membros dessa linda comunidade. Dou aqui a vez de falar à minha colega Tamyris Rodrigues, educadora, linguista, repórter especial de assuntos LGBT da Revista AzMina. Ela também é casada (no papel) com Maria Carolina, a quem ama há dois anos.

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Esta foi a semana da 19ª Parada do Orgulho LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, transexuais e transgêneros). Talvez muitos nem tenham se dado conta de que, até 2008, a sigla levava o G na frente. A mudança ocorreu graças à luta do movimento lésbico – e ela não é apenas estética. Trata-se de uma mudança política importante que é considerar a questão de desigualdade de gênero dentro do movimento LGBT. Afinal, grande parte da visibilidade social e política ainda é destinada aos homens gays. Nós, lésbicas, por sermos mulheres, além de enfrentarmos a homofobia, ainda temos a necessidade pulsante de lutar contra o machismo.

E se há desigualdade até mesmo dentro do movimento LGBT, o que dizer da representatividade de nós, lésbicas, na mídia? Há pouco, não ganhávamos nenhum espaço em jornais, filmes ou novelas. Enquanto a mídia gastava suas horas se opondo aos amores entre homens e considerando que o sexo entre eles era pagão e pervertido, ignorava-nos e nos tratava com condescendência.

Sexo entre mulheres sequer era considerado sexo porque a definição de sexo, per si, exigia a penetração peniana. A nós foi negada a representatividade não só do direito de amar, mas também do direito de existir. Para a mídia, estávamos ainda antes do estágio da crítica.

Mas, até hoje, ainda somos invisíveis para uma imprensa muito específica: a das revistas femininas. Essas publicações não reconhecem que existem mulheres que simplesmente não querem seguir a receita do “como enlouquecer os homens”. Não consideram que mulheres como eu buscam exercer a sexualidade de maneira diferente do que tratam em seu conteúdo. Sem falar nas mulheres transexuais, travestis e transgêneras que sequer são consideradas mulheres por essas revistas, uma vez que jamais são contempladas em uma citação sequer.

Que tipo de mulher as revistas femininas buscam atingir? Qual seu conceito do “feminino”? Não me sinto representada nos corpos padrões das fotos “photoshopadas”, nem nas roupas carésimas, muito menos nas receitas de como satisfazer seu parceiro (sempre homem) na cama. Não sou objeto de satisfação masculina ou boneca de vitrine. E é revoltante que a imprensa que me é vendida me tome como tal, intensificando ainda mais esse conceito ilógico que ė o machismo.

Recentemente, decidi lutar mais ativamente para ajudar a mudar esse quadro contribuindo na fundação da primeira revista feminina com editoria para lésbicas, feita por lésbicas, e colunas para transexuais. Mas, para sair do papel, a “Revista AzMina – para mulheres de A a Z” precisa do apoio de quem acredita nesse princípio de equidade e se dispõe a doar em nossa vaquinha on-line.

Essa, no entanto, não deveria ser apenas a cruzada de uma revista iniciante. Grandes veículos estabelecidos precisam reconhecer que mudanças nas leis e estruturas sociais só ocorrerão se lideradas por uma profunda transformação cultural. O papel de transgredir e alterar culturas cabe não só aos movimentos sociais, mas à imprensa também.

Embora o movimento LGBT tenha reconhecido que as lésbicas precisavam dar um salto para fora da invisibilidade, a mídia, de maneira geral, continua a fingir que não nos vê. Apenas recentemente relacionamentos lésbicos ganharam as telas da Globo e passaram a fazer parte do debate social (por exemplo, quando Daniela Mercury, bendita seja!, resolveu amar em público).

No entanto, eu continuo vendo por aí revistinhas de receitas comportamentais e de moda para mulheres que não sou eu, nem minha esposa e nem nenhuma das mulheres com quem convivo (lésbicas ou heterossexuais). A imprensa feminina nos aliena e não é feita para nós, que também somos mulheres. E, enquanto defende padrões heteronormativos, reforça nossa invisibilidade entre nossas próprias pares, as mulheres.

Eu acredito que é possível existir um jornalismo que liberte ao invés de alienar, que revele identidades em vez de escondê-las. A imprensa de hoje, porém, serve ao lucro acima de tudo. Baseia seu sucesso nas vendas de anúncios, o que as torna excessivamente conservadoras. Mesmo com todos os esforços para aumentar as vendas, muitas revistas femininas têm perdido dinheiro aos rodos, algumas sendo obrigadas a fechar as portas.

E sabe por quê? Porque a internet contribuiu para que nós, mulheres, nos apoderássemos de uma voz a mais e essa voz nos deu o poder de crítica sobre o que nos é entregue para engolir. Por que uma mulher compraria revistas que não falam dela e nem para ela? Se as revistas femininas não aprenderem que precisam ouvir a esse público mais analítico e serem canal para que ele fale, estarão condenadas ao fracasso.

E, aos que desligam a televisão na novela das oito para não verem duas mulheres sendo mulheres, uma frase que uma amiga sempre me diz: “aceite, que dói menos”. E um dia, quem sabe, sua dor vai se converter em felicidade pelo amor ter tantas cores.

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