As rodinhas da bicicleta da economia não podem ser tiradas. Por Fernando Brito

Paulo Guedes e Jair Bolsonaro: Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Publicado originalmente no Tijolaço:

Por Fernando Brito

O caro leitor e a estimada leitora já devem ter notado que nada, ou quase nada, resta da paralisação das atividades econômicas por conta da pandemia.

Aulas presenciais, estádios de futebol, cinemas e teatros e mais uma coisa ou outra, aqui e ali, são os únicos sinais do nunca completado “lockdown”, bem como a macabra rotina dos mil mortos diários a que, afinal, tivemos de aceitar como fatalidade.

Mas se a economia “voltou”, ou “está voltando” rapidamente, porque o Governo, pela boca do próprio Jair Bolsonaro e com a anuência do impiedoso Paulo Guedes esforça-se em afirmar que os programas de auxílio emergencial – seja o abono “para todos”, seja o subsídio para os contratos de trabalho reduzidos ou suspenso – continuarão até o final do ano?

Nada resta, senão a crise, a mostrar que, como se repetiu aqui, não eram as lojas fechadas o problema central da economia.

Bolsonaro, no Rio Grande do Norte, disse que “o Auxílio Emergencial foi bem-vindo, mas ele custa R$ 50 bilhões [por mês] , e infelizmente não pode ser definitivo, mas vamos continuar com ele, mesmo com valores diferentes, até que a economia possa pegar em nosso país”.

Guedes, por sua vez, ao resultado do Caged de julho, que teve saldo de geração de 131 mil vagas formais anunciou que o programa de subsídio por redução ou suspensão dos contratos será prorrogado por dois meses e que ele “já favoreceu quase 16 milhões de trabalhadores que tiveram seus empregos preservados graças ao programa”.

As duas medidas, claro, são necessárias. Estão funcionando como as conhecidas “rodinhas” de bicicleta, sem as quais o tombo teria sido muito mais feio. Mas está claro também que os dois, que têm em seus computadores diariamente os números do desempenho econômico, sabem que o impacto sobre consumo, produção e trabalho ainda não fazem um cenário de crise, mas de colapso.

Vejam: o “auxílio emergencial” dos R$ 600 reais, ao custo de R$ 50 bilhões mensais equivale, sozinho, a 75% de toda a receita líquida da União, após as transferências a estados e municípios. Mesmo que se o reduza, por valor e alcance, a um terço, ainda assim serão 25% de toda a receita, onde têm de caber o custeio da máquina e a conta das aposentadorias.

Os 16 milhões de empregos que continuam existindo são perto de 40% de todos os vínculos de trabalho com carteira assinadas existentes no país, hoje em 37,7 milhões. A dispensa de apenas um em cada dez trabalhadores que estão sendo mantidos no emprego com o subsídio parcial ( em alguns casos, total) ao pagamento de seus salários representaria um salto de quase 5% na taxa de desemprego aberto do país.

O “pequeno problema” é que a pandemia e a recessão que ela desencadeou (talvez “aprofundou” seja a palavra mais correta) não têm a menor preocupação com o calendário e, depois da angustiada euforia de que a vacinação em massa já pudesse estar disponível antes do final do ano, parece inevitável que ainda teremos o “verão do vírus” em 2021.

Todo o tempo de planejamento para que ingressássemos no novo ano com um vigoroso programa de investimentos públicos e reaquecimento do mercado de trabalho está sendo jogado fora, como se programas de emergência pudessem dar certo no longo prazo e não tivéssemos aprendido, desde as famosas “frentes de trabalho” do Nordeste, na ditadura militar, que não há saída em soluções não-estruturantes para o Brasil.

O jornalismo do DCM precisa de você para continuar marcando ponto na vida nacional. Faça doação para o site. Sua colaboração é fundamental para seguirmos combatendo o bom combate com a independência que você conhece. A partir de R$ 10, você pode fazer a diferença. Muito Obrigado!