
Um trecho do capítulo 14 do segundo volume (serão três) da biografia de Lula, de Fernando Morais (Companhia das Letras).
Conta um dos episódios decisivos da vitória de Lula em 2002, quando foi emitida a Carta ao povo brasileiro, que acalmou os mercados e os empresários.
Vejam o que Morais narra no livro que está sendo lançado em todo o Brasil:
“A vacina contra os preconceitos do mercado seria a “Carta ao povo brasileiro”. A primeira versão do texto que abriria as portas do mundo das finanças para a candidatura de Lula foi concebida na mesa de uma pizzaria de Ribeirão Preto por Palocci e Gushiken, dois dirigentes petistas originários da extrema esquerda trotskista. Depois deles, o documento rodou, sempre secretamente, pelas mãos de José Dirceu, Luiz Dulci, presidente da Fundação Perseu Abramo, e Aloizio Mercadante. Na undécima versão Palocci escreveu que o governo do pt se comprometia com um superávit primário de 4% a 5%. Luís Gushiken vetou:
— O Lula não assina isso nem fodendo!
Palocci explicou que os números eram a senha para conseguir o apoio de Roberto Marinho, das Organizações Globo, de Olavo Setúbal, da Febraban, de toda a elite brasileira, mas Gushiken bateu o pé:
— Então fale em superávit primário sem falar em números.
O texto final, que ficou a cargo do jornalista Carlos Tibúrcio, redator de discursos de Lula, também seria mudado por implicância de Gushiken.
Influenciado por sua militância em organismos como o francês Attac, que lutava pelo controle dos mercados bancários e pela taxação democrática das transações financeiras internacionais, Tibúrcio tentara enfiar contrabandos que esquerdizassem um pouco o texto para preservar Lula de críticas dos setores progressistas.
Gushiken vetou os enxertos e o texto ficou finalmente pronto. Diante de centenas de pessoas vindas de todo o Brasil que se espremiam no auditório do hotel Novotel, nas imediações do Parque Anhembi, no fim da manhã de 22 de junho de 2002, Lula leu o documento de quase 2 mil palavras, das quais menos de cinquenta resumiam o abre-te sésamo que iria garantir sua eleição para presidente:
“A questão de fundo é que, para nós, o equilíbrio fiscal não é um fim, mas um meio. […] Vamos preservar o superávit primário o quanto for necessário para impedir que a dívida interna aumente e destrua a confiança na capacidade do governo de honrar os seus compromissos”.
Quando Lula terminou a leitura, uma cópia da carta já estava em todas as redações do país e a versão traduzida para o inglês chegava aos principais jornais e organismos financeiros internacionais.
Do fim da tarde até a madrugada seguinte Palocci não fez outra coisa senão atender chamadas telefônicas e
responder e-mails com cumprimentos vindos de todas as partes do mundo.
A “Carta ao povo brasileiro” consolidou o nome de Lula nas pesquisas eleitorais, mas ainda restavam dúvidas sobre se o documento seria o suficiente para que ele se elegesse no primeiro turno. Limadas as arestas com as elites brasileiras, ainda restava dar um tratamento também diferenciado às relações com os Estados Unidos”.
🚨AGORA: Lula lança “Carta para o Brasil do Amanhã”, com 13 pontos e propostas prioritárias para o país, caso eleito:
“As primeiras medidas de nosso governo serão para resgatar da fome 33 milhões de pessoas e resgatar da pobreza mais de 100 milhões de brasileiros". #Eleições2022 pic.twitter.com/2IjbFpjcGg
— CHOQUEI (@choquei) October 27, 2022