Às vésperas de Davos, jornal suíço compara Bolsonaro a Pinochet e diz que ele despreza as mulheres e admira ditadores

Na semana que vem, Bolsonaro fará sua estreia internacional no Fórum Econômico Mundial, em Davos.

Ficará quatro dias na cidade, um recorde — o costume é um pernoite. Trump, Theresa May e Emmanuel Macron já anunciaram que não vão.

O jornal Le Temps, o único francófono na Suíça, publicou um artigo sobre Bolsonaro na última quarta feira, 16, assinado por Charles Wyplosz, comparando-o a Pinochet.

Alguns trechos:

O novo presidente do Brasil despreza abertamente as mulheres e defende uma atitude particularmente agressiva em relação às populações indígenas da Amazônia. Ele é um admirador dos generais ditatoriais dos anos 70 e de todos os militares que torturaram e executaram aqueles que protestaram.

Admira ainda mais Pinochet, que executou ainda mais pessoas do que seus colegas brasileiros e entregou as chaves das questões econômicas aos Chicago Boys. Esse atalho é importante: como Pinochet era um ditador particularmente cruel, tudo o que ele fazia era nojento. (…)

Como muitos outros populistas em todo o mundo, Bolsonaro foi eleito porque, há muito tempo, os brasileiros estão desesperados. As desigualdades são terríveis. A violência atingiu níveis alarmantes. A corrupção é generalizada. O orçamento é insustentável. Na década de 1990, o presidente Cardoso, um homem de centro-direita, parou a inflação líquida que durante anos ultrapassou mil por cento. Seu sucessor de esquerda, Lula, reduziu a desigualdade por meio de programas inteligentes, especialmente na educação. Ele cedeu o poder a Dilma Rousseff, que praticava o populismo de esquerda, arrastando Lula em sua queda. (…)

O sucesso de Bolsonaro é, acima de tudo, o fracasso da política brasileira desde o retorno da democracia em 1985. Diante do crime, ele pretende responder com a força. (…)

Ele nomeou como ministro da Justiça Sergio Moro, o pequeno juiz que mandou Lula para a prisão e que parece ter feito da luta contra a corrupção e a violência o negócio de sua vida. (…) Na economia, Bolsonaro recorreu a Paulo Guedes. Com um Ph.D. em Chicago, ele é altamente competente. Fervorosamente ligado aos benefícios da economia de mercado, ele obviamente pensa nos “Chicago Boys” de Pinochet.

Mas se o Chile tem agora a economia com melhor desempenho na América do Sul, isso deve muito aos Chicago Boys. Em um país como o Brasil, devastado por lobbies e corrupção, gastos públicos de interesse mais do que duvidoso e um sistema de pensões particularmente negligente, um retorno aos fundamentos não é insano, mesmo que a luta contra a pobreza seja esquecido ou, pior, revertida. (…)

Em questões fundamentais para o Brasil – violência, corrupção, economia pervertida -, a chegada ao poder de Bolsonaro representa uma aposta. Aposta arriscada, já que o personagem é sulfuroso e inexperiente, mas não necessariamente perdida com antecedência. O que é certo é que a outra questão essencial, das desigualdades, será esquecida.

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