Assassinato do cão Orelha revela redes online de tortura de animais

Atualizado em 30 de janeiro de 2026 às 13:53
O cão Orelha. Foto: Reprodução

A morte do cachorro comunitário Orelha, em um bairro nobre de Florianópolis (SC), colocou em evidência a violência contra animais e reacendeu o debate sobre a atuação de redes online que incentivam a tortura. Quatro adolescentes são investigados pela polícia, suspeitos de envolvimento no ataque que matou o animal e em outra agressão contra um cão conhecido como Caramelo, que sobreviveu a uma tentativa de afogamento na Praia Brava.

Embora ainda não haja indícios de ligação direta dos suspeitos com grupos virtuais organizados, especialistas alertam que casos como o de Santa Catarina não surgem no vácuo. Plataformas digitais têm sido usadas para difundir práticas extremas, nas quais a violência vira símbolo de pertencimento e reconhecimento, inclusive entre crianças e adolescentes.

Ao comentar o caso, a primeira-dama Janja da Silva afirmou que o episódio “é um alerta doloroso sobre uma geração exposta, desde cedo, a discursos e conteúdos digitais que banalizam a violência e transformam a dor em entretenimento”. Para pesquisadores e promotores, o cenário exige atenção redobrada de famílias e instituições.

Entre as práticas associadas a esses ambientes está o zoosadismo, caracterizado pela agressão deliberada a animais por prazer ou para exibição online. O procurador de Justiça Fábio Costa Pereira, do Ministério Público do Rio Grande do Sul (MP-RS), disse à Deutsche Welle que “a violência contra animais é só uma parte de um contexto mais amplo, de um conjunto de comportamentos que funcionam como marcadores de processos de radicalização”.

Orelha em veterinário após ser espancado. Foto: Reprodução

Investigações jornalísticas internacionais revelaram que essas redes também movimentam dinheiro. Em 2023, a BBC mostrou um esquema global no qual pessoas pagavam por vídeos de macacos sendo torturados e mortos na Indonésia. No ano seguinte, a CNN expôs grupos que lucravam com a mutilação e morte de gatos, usando plataformas como Telegram, X e YouTube.

O alcance desse conteúdo preocupa organizações de defesa animal. Uma coalizão internacional relatou ter recebido denúncias de mais de 80 mil links suspeitos em 2024, com vídeos envolvendo mil indivíduos de 53 espécies diferentes. Apenas 36% desse material foi removido, sendo Facebook e Instagram os principais hospedeiros, segundo o levantamento.

No Brasil, maus-tratos a animais são crime, com penas que podem chegar a cinco anos de prisão em casos envolvendo cães e gatos. Dados do Conselho Nacional de Justiça mostram que, desde 2021, houve aumento de 1.400% nos processos do tipo. Mesmo assim, novos episódios continuam a surgir, como a morte do cachorro comunitário Abacate, baleado no Paraná, reforçando a dimensão estrutural do problema.

Caique Lima
Caique Lima, 27. Jornalista do DCM desde 2019 e amante de futebol.