Assassinato do presidente do PSOL em Xapuri diz muito sobre o Brasil, mas não foi crime político. Por Joaquim de Carvalho

Elizangela com Josemar: “Quero justiça”. Foto: Facebook

Quando o corpo do presidente do PSOL em Xapuri, Josemar da Silva Conde, baixou à sepultura, às 10h30 desta sexta-feira, Elizangela Gomes Medeiros, lembrou que hoje é o aniversário dela, e os dois já tinham planos de ir à casa de um primo, que também aniversaria. Um tiro de espingarda, disparado em uma emboscada, colocou fim ao casamento de nove anos. “Ainda não sei o que fazer, mas já decidimos que não vamos mais tocar a colocação”, afirmou, em entrevista por telefone ao DCM.

Elizangela diz que o crime não teve motivação política.

Colocação é como as pessoas chamam a área de extração de borracha e castanha na floresta Amazônica. Conhecido como Tripinha, Josemar comprou a colocação em 2013 de um primo que já tinha uma área na reserva que leva o nome de Chico Mendes, o líder dos seringueiros morto em 1988, quando defendia a reserva da floresta para exploração da seringa e da castanha, e denunciava o desmatamento causado por pecuaristas.

Com a repercussão mundial que se seguiu ao crime, o sonho de Chico Mendes se realizou: uma área de quase 1 milhão de hectares foi transformada em reserva, e para ocupá-la, em 1990, o governo federal estabeleceu alguns critérios:  extração de borracha e castanha era livre, mas só uma pequena parte da colocação poderia ser usada para outras atividades agrícolas, como criação de gado.

Josemar, o Tripinha, foi para lá tempos depois, quando se tornou comum a venda de colocações ou de partes de colocações. Ele adquiriu um pedaço de terra do primo e afilhado, Francisco da Silva Barroso. Ela não é seringueiro, mas viu na compra uma oportunidade de mais renda. Seu negócio é a mecânica de motocicletas, muito importante numa cidade que tem muito mais veículos de duas rodas do que de quatro.

O jornalista Raimari Cardoso, do AC24 horas e que conhece bem Xapuri, contou:

“A morte de Josemar é mais uma daquelas que ainda consegue causar comoção em uma pequena cidade como Xapuri, onde ele era uma pessoa muito conhecida. Tripinha Motos era a sua marca empresarial, e o seu ofício, a mecânica de motocicletas, com sua loja de peças e acessórios, era o que lhe identificava, além da sua índole e reputação, visto que era uma pessoa notoriamente do bem, trabalhadora e de origem humilde. O apelido adotado como nome veio do pai, já falecido, que era conhecido como Tripa de Galinha.”

Josemar se desentendeu com Francisco, dono de uma área na reserva, em razão dos limites da propriedade adquirida. Segundo a Elizangela, ele deveria ficar com quatro estradas de seringa, com 100 árvores cada uma. Construiu uma pequena casa, providenciou água, limpou as estradas e estava pronto para começar a extrair borracha quando o primo disse que, em vez de quatro, ele só ficaria três estradas. O caso foi parar na Justiça, que deu razão ao primo, para surpresa de Elizangela.

“Nós temos tudo registrado em cartório”, afirmou.

De qualquer forma, Josemar concordou: ficaria com as três estradas e devolveria a Francisco R$ 3 mil, parcelados. A Justiça havia determinado a demarcação das áreas e Josemar, que mora na cidade, foi para a reserva, juntamente com o meeiro, Sebastião. Na terça-feira, Francisco pediu que Josemar fosse à sua propriedade, para que acertassem a medição.

Era, na visão de Elizângela, uma emboscada.

Segundo Sebastião contou aos policiais, Francisco chegou a receber Josemar, mas não permitiu que entrasse na casa. Afirmou que a terceira estrada teria 60 árvores, não 100. Josemar não concordou. Francisco entrou em casa e se trancou. Convencido por Sebastião a deixar o local, para posteriormente reclamar na Justiça, Josemar caminhava em direção à motocicleta quando foi alvejado por um tiro de espingarda.

Sebastião disse que o assassino estava com o cano da espingarda colocada em uma fresta da janela. Não era possível ver. Ele deu o tiro, pulou e fugiu, embrenhando-se na mata. A irmã de Francisco teria informado hoje ao delegado que ele se entregará. Deve estar orientado a esperar passar o tempo do flagrante. Nesse caso, só será preso se houver a decretação da preventiva.

Policiais resgataram o corpo de Tripinha em um local de difícil acesso. Foto: divulgação da Polícia Civil

Num primeiro momento, a morte de Josemar foi recebida como crime político, em razão da atuação dele pelo PSOL. O presidente do partido, Juliano Medeiros, divulgou nota, bem como o ex-candidato a presidente Guilherme Boulos. O governador do Estado, Gladson Cameli, que é do PP, também repudiou o assassinato.

“Indignado, repudio o brutal assassinato, pois todo crime covarde contra dirigente partidário constitui atentado ao Estado de direito e à democracia brasileira”, destacou.

Xapuri hoje é centro de um conflito por conta da reserva. A ofensiva é contra a demarcação de 1 milhão de hectares definida depois da morte de Chico Mendes.

Há duas semanas, o senador Márcio Bittar, do MDB, e a deputada Mara Rocha, do PSDB, anunciaram que vão apresentar ao mesmo tempo um projeto de lei para reduzir o tamanho da reserva. Uma tramitação começará pela Câmara, outra pelo Senado.

Publicamente, dizem representar o interesse dos pequenos proprietários, de forma a permitir que eles explorem sua propriedade de diferentes formas, não apenas com extração da seringa.

Na prática, a medida vai beneficiar grandes pecuaristas, que já estão na região e derrubam árvores e queimam a mata para colocar gado. Ele penetram na reserva ilegalmente, através da compra de áreas dos antigos seringueiros ou de herdeiros.

Há algumas semanas, em razão do decreto de Garantia da Lei e da Ordem do governo federal, a fiscalização ambiental encontrou touros, bois e vacas onde deveria haver seringueiras e castanheiras.

Em razão disso, houve apreensão do rebanho, mas um juiz federal mandou devolver o gado a seus proprietários. Ao mesmo tempo, o ministro Ricardo Salles, do Meio Ambiente, determinou a suspensão das ações de fiscalização na reserva e foi convocada uma audiência pública.

O Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) tem apenas seis funcionários para fiscalizar 1 milhão de hectares, área equivalente a 1 milhão de campos de futebol.

Josemar foi morto em uma disputa privada, sem relação com uma política. Mas seu trabalho no PSOL era visto como relevante em termos locais.

Quando assumiu a presidência, em 2016, o partido tinha 30 filiados e hoje tem mais de 100, o que é um número grande considerando-se que Xapuri é um município de 8 mil habitantes.

Na última eleição, foi candidato a vice-prefeito, na chapa encabeçada por um político do PROS. O PT venceu as eleições.

Há dois anos, Josemar se converteu ao Evangelho e se tornou membro da Assembleia de Deus. Como conta o jornalista Raimari Cardoso, não tinha adversários conhecidos na cidade, exceto o primo e afilhado.

Deixou cinco filhos, de outros relacionamentos. Elizangela lutará agora por justiça. “Não quero que ele (o assassino) morra, quero que pague pelo que fez, como manda a lei”, disse.

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