
A advogada Juliana Velho, chefe de gabinete da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo, foi responsável pela contratação do Instituto Conhecer Brasil (ICB), em 14 de agosto de 2018, pela Prefeitura de São Paulo, para a realização de um evento sobre literatura gospel, que custou R$ 2,5 milhões aos cofres públicos e teve suas contas rejeitadas pelas autoridades de controle municipais por ter sido um fracasso de público.
O ICB tem como proprietária a empresária Karina Ferreira da Gama Bernassi, que também é proprietária da produtora de filmes Go UP Entertainment, uma das donas dos direitos e responsável pela produção do filme “Dark Horse”, sobre a vida de Jair Bolsonaro e financiado por Daniel Vorcaro, ex-dono do banco Master.
Em 14 de agosto de 2018, Juliana Velho, então chefa de gabinete da Secretaria Municipal de Cultura, aprovou as condições e assinou o contrato com Karina da Gama, para que o evento, chamado “Encontro Literário Ide”, ao custo de R$ 2,5 milhões, fosse organizado pela ONG de Karina, com dezenas de palestras divididas em quatro dias, no auditório Elis Regina, no complexo do Anhembi, nos dias 27 a 30 de setembro daquele ano. Ou seja: a dona da Go UP teria pouco mais de um mês para organizar tudo.
O resultado foi que nada saiu como previsto no contrato, a não ser o pagamento integral do dinheiro à ONG de Karina da Gama (ela mesma, aliás, figurando como uma das beneficiárias diretas do dinheiro público, em um cachê de R$ 24 mil).
Um dos exemplos é a contratação do mestre de cerimônia do evento. O ICB prometeu à prefeitura que seria o jornalista Reinaldo Gotino, por R$ 35 mil. Na última hora, porém, o ICB informou que ele não poderia comparecer. Karina da Gama então o substituiu por Bianca Toledo, pastora e influencidora gospel que acusou seu ex-marido (o também pastor Felipe Heiderich) de abusar sexualmente do enteado. Ele veio a ser absolvido pela Justiça e passou a processar Bianca.

O contrato foi assinado como “Termo De Fomento à Cultura”, sem ser precedido por licitação, pela atual chefe de gabinete da Educação de Tarcísio de Freitas.



Relatório técnico de março de 2020 da pasta municipal de Educação aponta que o evento não cumpriu com os requisitos prometidos, o que levou à solicitação de devolução de parte do dinheiro entregue pela prefeitura.
No documento, se lê que o o ICB informou que o público presente estimado foi de 16.120 (dezesseis mil cento e vinte) pessoas, em 04 (quatro) dias de evento, no Auditório Elis Regina, com capacidade para 930 (novecentos e trinta) lugares.
Ocorre, porém, que o projeto tinha como meta “atingir um público rotativo de 25.000 (vinte e cinco mil) pessoas, nas palestras, debates, fóruns e premiações para o mercado literário”.
Apesar disso, aponta o relatório municipal, “não foram encaminhadas fotos das citadas fitas de punho distribuídas com cores diferenciadas que, segundo a proponente, serviu para aferir o quantitativo de público presente, somente fichas de inscrição, o que não comprova o comparecimento. No material comprobatório do cumprimento do objeto em fotos , referente ao “Encontro Literário IDE”, realizado nos dias 27 à 30/09/2018, não há registros do Auditório Elis Regina lotado“.
Ainda sobre o público presente, o ICB justificou que com a experiência da entidade com eventos e o plano de marketing, havia a “expectativa” de atrair 25.000 pessoas em 04 dias de eventos no Auditório Elis Regina, com capacidade para 930 pessoas.
“Se levarmos em consideração que foi autorizado um aporte financeiro de R$ 2.500.000,00 (dois milhões quinhentos mil reais), visando atender um público rotativo de 25.000 (vinte e cinco mil) pessoas, ou seja, um gasto médio de R$ 100,00 (cem reais) por pessoa, , e que o ICB informou que o público estimado presente foi de 16.120 (dezesseis mil cento e vinte) pessoas (023983109), esse custo subiu para R$ 155,08 (cento e cinquenta e cinco reais e oito centavos) per capita”, mostra o relatório.
Quer dizer, se fosse mesmo verdade que as palestras esvaziadas mostradas nas fotos tenham atraído 16 mil pessoas, ainda assim o evento teria custado 50% a mais aos cofres públicos do que o prometido por Karina da Gama.


Juliana Velho foi nomeada chefe de Gabinete da Educação pelo governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) em setembro de 2024. Antes, ela havia trabalhado por dois anos no Instituto Lide, de João Doria Jr.
