Assistolia fetal: entenda o procedimento citado na sabatina de Messias

Atualizado em 29 de abril de 2026 às 13:40
Jorge Messias durante sabatina no Senado, nesta quarta (29). Foto: Cristiano Mariz/Agência O Globo

A assistolia fetal, procedimento médico utilizado em casos de interrupção de gravidez em estágio avançado, ganhou protagonismo na sabatina de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal — mas, para além da disputa política, especialistas da área de saúde são categóricos: a técnica é considerada fundamental para a realização segura do aborto legal nesses casos.

Durante a sessão no Senado, Messias afirmou ser “totalmente contra o aborto”, mas evitou condenar diretamente a assistolia fetal e reforçou que, como agente público, atua sob os limites da Constituição e da lei.

A fala foi confrontada por senadores de extrema-direita porque, quando chefiava a Advocacia-Geral da União, ele deu parecer favorável a uma ação do PSOL contra uma resolução do Conselho Federal de Medicina que proibia o procedimento.

O que é assistolia fetal

Assistolia fetal. Foto: Reprodução

A assistolia fetal consiste na aplicação de substâncias — como o cloreto de potássio — diretamente no coração do feto para interromper os batimentos cardíacos antes da indução do aborto, geralmente após 20 a 22 semanas de gestação.

A técnica é recomendada em diretrizes da Organização Mundial da Saúde para esses casos.

Ao contrário do tom político do debate, entidades médicas e especialistas destacam que a assistolia fetal não é opcional em muitos casos — ela é necessária.

Segundo profissionais da área:

  • Sem a assistolia, o aborto tardio pode não ser viável
  • Há risco de o feto ser expulso com sinais vitais, o que gera complicações clínicas graves
  • O procedimento ajuda a evitar sofrimento adicional e situações médicas imprevisíveis

A Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) já afirmou que, na prática, sem a técnica, muitos serviços deixam de realizar abortos previstos em lei.

Além disso, médicos ressaltam que casos de aborto em estágios avançados são, em geral, exceção — frequentemente ligados a situações como:

  • violência sexual, especialmente contra menores
  • demora no acesso ao sistema de saúde
  • entraves burocráticos ou judiciais

Disputa com o CFM e decisão do STF

A controvérsia se intensificou quando o Conselho Federal de Medicina proibiu o uso da assistolia fetal. A medida foi suspensa pelo ministro Alexandre de Moraes, permitindo a continuidade do procedimento até decisão final do Supremo.

Para especialistas, a proibição criaria um impasse: o aborto continuaria legal em determinados casos, mas sem um método considerado seguro para realizá-lo.

A legislação brasileira permite o aborto em três situações:

  • risco de vida para a gestante
  • gravidez resultante de estupro
  • casos de anencefalia fetal (por decisão do STF)

Não há limite de tempo gestacional definido em lei, o que explica a necessidade de técnicas específicas em fases mais avançadas da gravidez.

Ao defender seu histórico, Messias afirmou que pareceres jurídicos não refletem convicções pessoais, mas o dever de cumprir a Constituição. Ainda assim, o tema segue como um dos mais delicados de sua indicação — especialmente porque, fora do campo político, há consenso relevante entre médicos de que o procedimento é indispensável para garantir o acesso ao aborto legal com segurança.

Caique Lima
Caique Lima, 27. Jornalista do DCM desde 2019 e amante de futebol.