Ataque dos EUA à Venezuela inaugura nova fase na América do Sul que pode engolir o Brasil

Atualizado em 4 de janeiro de 2026 às 6:06
Bombardeio em Caracas durante ação americana que sequestrou o presidente venezuelano Nicolas Maduro. Fotomontagem

O bombardeio dos Estados Unidos à Venezuela e a captura de seu presidente, Nicolás Maduro, se inscrevem em uma longa tradição de intervenções norte-americanas na América do Sul, na América Central e no Caribe ao longo dos últimos dois séculos. Ao mesmo tempo, representam um marco inédito: trata-se do primeiro ataque militar direto dos EUA contra um país sul-americano.

Em entrevista coletiva após a captura de Maduro, Donald Trump afirmou que a “dominância americana no hemisfério ocidental jamais será questionada novamente”.

Desde meados do século XIX, os Estados Unidos atuam sobre países vizinhos por meio de pressão econômica e também de ações militares, com um histórico que inclui invasões, ocupações e operações encobertas. O episódio que mais se aproxima do atual é a captura do ditador panamenho Manuel Noriega, em 1989.

Ações secretas dos EUA contribuíram para a derrubada de governos eleitos e para a instalação de ditaduras militares em países como Brasil, Chile e Argentina. Ainda assim, intervenções militares abertas costumavam se restringir a nações mais próximas, na América Central e no Caribe.

Para Maurício Santoro, professor de relações internacionais da UERJ, o ataque à Venezuela “sinaliza uma mudança profunda na política externa e de defesa”, alinhada à nova estratégia de segurança nacional divulgada recentemente pelo governo Trump. O documento defende a ampliação da presença militar dos EUA na região, apresentada como um “corolário Trump” da Doutrina Monroe — formulada em 1823 sob o lema “América para os americanos” e usada historicamente para justificar golpes apoiados por Washington.

Embora a ação de sábado dialogue com práticas do passado, ela causa impacto por não haver precedentes desde 1989, segundo Alan McPherson, professor da Temple University e autor de A Short History of US Interventions in Latin America and the Caribbean. Para ele, a ideia de que a era do imperialismo explícito teria ficado no século XX não se confirmou.

Praticamente todos os países da região já sofreram algum tipo de intervenção norte-americana, aberta ou encoberta. Alguns exemplos ajudam a dimensionar esse histórico:

México

A anexação do Texas, então território mexicano, provocou disputas que culminaram na invasão dos EUA em 1847. Tropas americanas ocuparam a Cidade do México, e o conflito terminou em 1848 com um tratado que obrigou o país a ceder 55% de seu território, incluindo áreas que hoje correspondem a Califórnia, Nevada, Utah e partes de outros cinco estados.

Mapa do México antes da perda do território em que hoje é o Texas. Reprodução Instagram

Cuba

Em 1898, os EUA apoiaram a luta cubana contra a Espanha. Após a vitória, ocuparam a ilha até 1902 e garantiram controle permanente sobre a base de Guantánamo. Novas ocupações ocorreram entre 1906 e 1909 e entre 1917 e 1922. Após a Revolução de 1959, a CIA apoiou a fracassada invasão da Baía dos Porcos, em 1961.

Fidel Castro examina os destroços de um avião americano que caiu durante a invasão à Baía dos Porcos, em 1961.Foto: Bob Henriques/Magnun

Haiti

Em 1915, sob o argumento de estabilizar o país e proteger interesses comerciais, os EUA invadiram o Haiti e passaram a controlar alfândegas, o Tesouro e o banco nacional até 1934. Em 1959, a CIA atuou nos bastidores para sustentar a permanência do ditador François “Papa Doc” Duvalier, visto como aliado contra a influência cubana.

Brasil

Embora não tenha ocorrido intervenção direta em 1964, uma força naval dos EUA ficou posicionada no litoral brasileiro caso houvesse resistência ao golpe que depôs o presidente João Goulart. Na década de 1970, CIA e FBI assessoraram estruturas repressivas de ditaduras no Brasil, Chile e Argentina durante a Operação Condor.

Panamá

Os EUA apoiaram a separação do Panamá da Colômbia em 1903 e mantiveram forte influência no país. Em 1989, cerca de 27 mil soldados americanos invadiram o território para capturar Manuel Noriega, antigo aliado da CIA, acusado de narcotráfico. A operação deixou entre 200 e 500 civis mortos, além de cerca de 300 soldados panamenhos, e resultou na posse de Guillermo Endara como presidente.

Ainda não está claro se a Venezuela seguirá caminho semelhante. Trump afirmou que o país será “administrado” pelos EUA até que ocorra uma “transição adequada”.

McPherson ressalta que intervenções norte-americanas raramente produzem estabilidade duradoura. Segundo ele, esses episódios quase sempre geram problemas prolongados de sucessão política e governabilidade.