Até quando a cracolândia vai ser removida?

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A cracolândia começou a ser removida. O que podemos esperar daqui em diante?

A priori, o ceticismo é generalizado. Tirar os usuários de crack daquela mini favela para alocá-los em hotéis a uma quadra de distância, na mesma rua, e ainda vizinhos das mesmas biqueiras fornecedoras parece uma atitude fadada ao fracasso. E tem tudo para se transformar em mais uma oportunidade disperdiçada se não for acompanhada de perto e por muito tempo.

A reportagem do DCM acompanhou a desocupação dos barracos da rua Helvetia ao longo da terça e quarta-feira. Diferentemente das truculentas ações anteriores, a atual foi minimamente civilizada, os barracos só eram desmontados após os moradores cadastrados retirarem seus pertences e dirigirem-se a um dos 5 hotéis da região, integrantes do programa. Ao final do segundo dia, poucos barracos restavam em pé.

Se para o observador comum o ceticismo se faz pela inalteração do habitat, para os viciados e moradores, a descrença se deve exatamente pela desconfiança da falta de continuidade, como em todas as oportunidades anteriores. A totalidade dos moradores ouvidos desconhecia por quanto tempo poderiam habitar os hotéis e afirmavam que, passada a Copa do Mundo, serão expulsos e tudo voltará ao que é hoje (segundo a prefeitura, não há prazo para o término do programa, mas os recursos são suficientes para um ano, no mínimo).

Além da moradia, o pacote inclui as 3 refeições diárias e um “salário” de 15 reais por dia trabalhado na zeladoria de praças. Uma pedra custa hoje 10 reais. Para além da matemática rápida, o meu ceticismo se voltou para quantos de fato possuiriam forças para uma jornada de 4 horas de trabalho. Estão franzinos e subnutridos. Everaldo tem apenas 40 anos, aparenta mais de 55, não deve pesar mais que 40 kg, e tudo que lhe resta é uma pequena mochila. Questionada, a assistente social afirmou que não havia necessidade de sua internação.

O clima era de alguma tensão, embora as condições nas quais aquelas pessoas se encontravam não permita uma leitura simplista. O nível de degradação humana a que chegaram é deprimente. Suas condições de higiene e auto-estima estão abaixo de zero. O odor no interior dos barracos é agressivo, tanto quanto alguns de seus ocupantes. Um fotógrafo levou um pontapé na camera e quase teve uma cadeira arremessada contra sua cabeça.

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Mas a maioria parecia concordar com o projeto. Concordar talvez não seja o termo mais apropriado. Estavam catatônicos, quase zumbis, sem reação. Tinham em mente que não há outra escolha. Apesar da aparente tranquilidade da operação, sabem que se não saírem por bem agora, serão retirados na marra em breve. Quem não aceitou se mudar, preferiu voltar para a rua.

O hotel visitado pelo DCM é de uma simplicidade inenarrável. Mas depois de sair de um barraco daqueles, qualquer aposento ganha as proporções do TajMahal. O Hotel Belo Horizonte possui quartos pouco maiores que uma cama, há um banheiro pelo menos (só vi um) e uma área comum que poderá fazer as vezes de refeitório. Acomodou aproximadamente 30 pessoas na primeira noite e, segundo relatos, correu tudo bem.

O quadro é extremamente complexo. A prefeitura reservou 400 vagas em hotéis. Calcula-se que mais de mil pessoas vivessem na favelinha (o público flutuante é imensamente maior e em nada se intimidou com a realização da operação e presenças da polícia, da mídia, de autoridades).

Ao contrário do que se pode imaginar, há um comércio mais amplo do que o de drogas, cuja clientela é composta quase exclusivamente por crackeiros. São vários bares e mercearias cravados no coração da cracolândia. Mel possui uma quitanda há seis anos ali. Afirma que os viciados consomem uma média de R$ 3,00 por dia com café, leite e biscoitos (não pedem fiado) e não sabe avaliar se o fim da cracolândia seria bom para o seu negócio.

A ação teve seu início. Se retirar os dependentes dos barracos e acomodá-los em hotéis for tudo que a prefeitura tem no rascunho, em três meses a bomba explode. Acompanhamento e assistência são palavras de ordem. A ver.

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