Até quando o consumidor aceitará pagar mais caro por um produto apenas porque ele é da Apple?

Cook, o substituto de Jobs

Esta semana lançaram o Iphone5 e a mídia, já viciada na histeria histórica, dá um espaço desproporcional ao assunto, embora a tecnologia agora embarcada já tenha viajado na maioria dos concorrentes. Nunca como antes a seiva mágica de Steve Jobs fez tanta falta.  Mesmo que por trás exista uma equipe de gênios devotados que trabalham 24 x 7 para produzir parafernálias que ninguém acredita que façam falta até pipocarem nas Apple Stores, foi-se o diferencial carismático e performático que dava alma aos apetrechos.

O dinamismo descontrolado de Jobs — com caprichos por vezes brilhantes e incompreendidos, outras vezes equivocados e desnecessários — o fazia se envolver em todas as decisões e produtos. O problema é que na Apple pós-Jobs ninguém tem estas caraterísticas combinadas. Por isso, a Apple tende a virar commodity, e o consumidor acabará optando mesmo é pelo que for mais barato.

Não que a Apple esteja acéfala: Tim Cook, o valoroso ex-chief operation officer e atual CEO, garante que os projetos sigam o devido curso — embora mal disfarce seu papel operacional de sargentão que chora o sumiço do general. Com boa formação acadêmica em negócios e computação, passagem de 12 anos pela IBM e pela Compaq, é exigente, perseverante, mas desprovido de emoções; e tem a seu favor a alta confiabilidade dos produtos da Apple. Quando perguntaram um dia se poderia ocupar o lugar de Jobs, respondeu com frieza siberiana: “Steve é insubstituível, e as pessoas precisam se acostumar com isso”.

Não se discute a competência de Tim Cook, testada mais de uma vez nos seis meses de 2009 em que o chefão foi se tratar: as ações da Apple subiram 78% e ele embolsou 12 milhões de dólares pelo dever cumprido com louvor. Agora, porém, não se trata mais de troca temporária. Ele está solto na selva. Dizem os críticos que Cook deixa a desejar quando se trata de visão criativa e dinamismo. Mas é covardia compará-lo com Jobs, um desses tipos raros que primeiro captam o que falta às pessoas para depois desenvolver tecnologias intuitivas que se incorporam às suas vidas como segunda pele. Tome-se o iPod, que surgiu em 2001 em pleno reinado do walkman da Sony (alguém aí ainda sabe o que é isso?). Em seguida veio a funcionalidade multimídia do iPhone, ponto de partida para o iPad, que um dia se transformará num iQualquercoisa.

São raras as empresas que sobrevivem  à perda de  líderes visionários. A Disney é um destes casos. Seu fundador, Walt Disney, conseguiu que artistas talentosos colaborassem entre si para criar os produtos mais espetaculares de entretenimento. Morto Disney, em 1966, a empresa primeiro estacionou do ponto de vista de criativo. Mas, quase 20 anos depois, apareceu um executivo brilhante, Michael Eisner, para devolver a potência à Disney. Eisner resgatou o desenho animado, expandiu os parques temáticos e estabeleceu novas fronteiras comerciais para explorar o respeitável acervo de filmes e personagens. Também comprou a rede de TV ABC, a ESPN e até mesmo a Pixar — estúdio que revolucionou a animação por meio da computação gráfica, na época ironicamente comandado por ninguém menos que Steve Jobs.

Quando saiu, 21 anos depois, Eisner transformara a empresa de filmes e parques temáticos de 1,8 bilhão de dólares em 1984 em um império de mídia global de 80 bilhões de dólares.  Cook com certeza não é Jobs – e aparentemente também não é um Eisner, um líder talentoso e criativo com capacidade gerencial para aprimorar o que existe e, ao mesmo tempo, reinventar o negócio sem rejeitar o legado do fundador. Tudo isso considerado, a Apple corre um sério risco de se transformar num superpetroleiro: grande, lenta e muito difícil de manobrar.

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