“Ato de censura baseado em argumento fraco”: especialistas criticam decisão de Kassio sobre pesquisa

Atualizado em 8 de junho de 2026 às 20:50
Nunes Marques
O presidente do TSE, Kassio Nunes Marques. Foto: Luiz Roberto/TSE

Especialistas em pesquisas eleitorais criticaram a decisão de Kassio Nunes Marques, presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que suspendeu a divulgação de uma pesquisa da AtlasIntel sobre a disputa presidencial. O levantamento apontava queda de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) após a revelação de conversas do senador com Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master. Com informações do Estadão

João Francisco Meira, presidente do Conselho de Opinião Pública da Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (Abep), classificou a medida como “um ato de censura à pesquisa baseado em um argumento fraco”. Meia afirmou ainda que a decisão é “inconstitucional” e fere a liberdade de divulgação de levantamentos eleitorais.

A decisão atendeu a um pedido do PL, que alegou indução dos entrevistados por causa de perguntas sobre o Banco Master e da exibição do áudio em que Flávio Bolsonaro pede recursos a Vorcaro para financiar o filme “Dark Horse”, sobre Jair Bolsonaro. O levantamento mostrou Flávio Bolsonaro com 41,8% contra 48,9% de Lula (PT) em uma simulação de segundo turno.

Associação de Flávio Bolsonaro com Vorcaro prejudicou fortemente a campanha do filho de Jair Bolsonaro
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado

Para Meira, a crítica não se sustenta porque as perguntas de intenção de voto foram feitas no início do questionário. Segundo ele, o áudio só foi apresentado ao final da pesquisa, quando o eleitor já havia respondido aos cenários eleitorais. “Como o áudio, apresentado apenas no final do questionário, poderia de alguma forma afetar a intenção de voto, que foi medida muito antes?”, questionou.

Oswaldo Amaral, professor do Departamento de Ciência Política da Unicamp, também afirmou que a decisão é “tecnicamente muito frágil” e pode criar um precedente perigoso na reta final das eleições. Para ele, a medida pode ser usada como expediente para limitar a divulgação de informações relevantes ao eleitor.

Raphael Nishimura, estatístico da Universidade de Michigan, avaliou que o áudio e o questionário eleitoral funcionaram como partes separadas do levantamento. Ele disse que não faz sentido atribuir à gravação influência sobre respostas dadas antes de sua exibição, embora tenha ponderado que as perguntas sobre o Banco Master poderiam ter ficado concentradas no fim do questionário.

A AtlasIntel nega ter induzido os entrevistados. O instituto afirmou que o questionário principal foi encerrado antes de qualquer contato dos participantes com o áudio e que, após essa etapa, não havia possibilidade de voltar às perguntas anteriores ou alterar respostas já registradas.

Laura Jordão
Estudante de Sociologia e Política na Fundação Escola de Sociologia e Política; escrevo pelo Diário do Centro do Mundo!