Atropelamento, fuga e normalidade

O estudante Alex Siwek vai responder apenas por lesão corporal no caso em que atropelou um ciclista e atirou fora seu braço.

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Siwek mostra onde atirou o braço de David

Em março, um dos crimes de trânsito mais tenebrosos da história aconteceu na Avenida Paulista. David dos Santos Silva, de 22 anos, foi atropelado em sua bicicleta e teve o braço direito amputado. O motorista, Alex Kozloff Siwek, fugiu sem prestar socorro. Em seguida, atirou o braço em um córrego na Avenida Ricardo Jafet.

Há alguns dias, o Tribunal de Justiça de São Paulo decidiu que Siwek não vai responder por tentativa de homicídio com dolo eventual e não será levado a júri popular. Segundo a promotoria, ele sabia do risco de provocar a morte do ciclista “diante da forma tresloucada que conduzia seu automóvel [sob influência de álcool, em alta velocidade, ziguezagueando, ingressando em pista fechada ao tráfego de veículos e destinada à ciclovia], bem como em decorrência de suas atitudes posteriores, uma vez que se evadiu do local, omitindo socorro, levando o braço de David em seu carro, deixando a vítima largada na via pública, demonstrando total ausência de compaixão e piedade”.

Alex será julgado por lesão corporal, que prevê pena de seis meses a dois anos. Segundo o desembargador Breno Guimarães, em acidentes de trânsito a regra é a culpa, sendo o dolo eventual adotado em casos “excepcionais”.

É de se perguntar do que precisa um caso para ser excepcional. Um sujeito atropela, foge, percebe que o membro da vítima está no carro, joga fora aquele naco de carne num rio, volta para casa — isso deve ser considerado comum, portanto.

Alex Siwek, estudante de psicologia, voltava de uma balada. Testemunhas dizem que ele andava em ziguezague. Um exame feito após o incidente apontou-lhe vestígios de álcool, mas concluiu que ele não estava embriagado no momento da colisão. David ia para o trabalho. Pintor de parede, pobre, ganhou uma prótese. Nesse tempo todo, o cara que passou por cima de sua bike num Hond Fit e quase o matou jamais the telefonou.

David está tentando aprender a usar a mão esquerda. Siwek está mais tranquilo. Tudo de volta à normalidade.

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