Augusto Nunes e sua covardia retratam a decadência da velha imprensa brasileira. Por Joaquim de Carvalho

Augusto Nunes e Glenn Greenwald

O jornalista Glenn Greenwald caiu em uma arapuca hoje, ao participar do programa de rádio Pânico, na Jovem Pan.

Como em outras ocasiões, ele aceitou o convite da emissora e não sabia que lá estaria também Augusto Nunes.

A produção do programa, comandado por Emílio Surita, colocou Glenn Greenwald e Augusto Nunes lado a lado.

Não terminaria bem, é óbvio.

Há cerca de dois meses, em seu programa na emissora, Augusto atacou o fundador do Intercept com um golpe baixo.

Falou dos filhos dele com o deputado federal David Miranda e sugeriu que o juizado de menores investigasse a família.

“Eu estava pensando neste casal. O Glenn Greenwald passa o dia tendo chiliques no Twitter ou trabalhando como receptador de mensagens roubadas. Esse David em Brasília lidando com rachadinhas, que essa é a suspeita aí que (inaudível) trabalha. Quem é que cuida das crianças que eles adotaram? Isso aí o juizado de menores deveria investigar”, comentou Augusto.

Glenn Greenwald respondeu, através do Twitter:

“Fiz jornalismo em dezenas de países no mundo democrático. Um limite absoluto, até em combate político, é não usar os filhos menores como alvo. A única exceção que conheço é o movimento Bolsonoro e esse lixo da JP e Veja: se 2 pais trabalham, o Estado deve investigar seus filhos?”.

Glenn se surpreendeu hoje com a presença de Augusto Nunes no mesmo programa e explicou na rede social por que não foi embora:

“Acabei de chegar na Jovem Pan pra fazer o Programa Pânico e descobri que Augusto Nunes — que disse que um juiz de menores deve investigar a remoção de nossos filhos – vai participar. Tô muito feliz pq tenho muitas perguntas pra ele.”

Depois da apresentação, em que Surita disse que  os titulares do programa não fariam perguntas, mas apenas assistiram e comemorariam, como se fossem a plateia de uma luta de Vale Tudo, Glenn comentou que sempre achou possível fazer o diálogo com todos, inclusive com Augusto Nunes, mas advertiu:

“Tem limites. Nós temos muitas divergências políticas. Não tem problema nenhum ser criticado pelo meu trabalho, eu critico ele também, mas o que ele fez — ele disse nesse canal, a Jovem Pan, foi a coisa mais feia, mais suja que eu vi na minha carreira como jornalista, inclusive fazendo uma guerra com CIA, com o governo Obama, com o governo Reino Unido, ele disse que um juiz de menores deveria investigar nossos filhos e decidir se nós vamos perder nossos filhos, se eles deveriam ser devolvidos para o abrigo, com base nenhuma, acusando que nós estamos abandonando, fazendo negligência dos nossos filhos, a coisa mais nojenta eu eu vi na minha vida”.

Augusto Nunes olhava para baixo, como se estivesse lendo algo na mesa de Glenn.

O jornalista norte-americano se volta para Augusto e diz, incisivo:

“Eu quero saber se você acredita ainda que um juiz de menores deveria investigar nossa família, com possibilidade de tirar nossos filhos da nossa casa e devolvê-las para o abrigo, sem pai, sem mãe, sem família nenhuma? Você acredita nisso?”

Augusto, sem olhar para Glenn, responde:

“Esta é a prova de que o Brasil criou o faroeste à brasileira. Quem tem que se explicar é quem comete crimes e fica cobrando quem age honestamente”, disse, apontando para si.

Glenn não comete crime algum ao publicar informações de interesse público que lhe foram entregues por uma fonte cuja identidade não revela. Não há crime, mas o exercício regular do jornalismo.

Os diálogos revelados pelo Intercept confirmaram a Lava Jato como uma operação política, um instrumento de perseguição.

Já Augusto Nunes pode, sim, ser acusado de crime com base em seu comentário: injúria. Sua fala sobre a família de Glenn não atende nem remotamente ao interesse público.

Augusto continuou, sem olhar para Glenn, que tem os olhos fixos nele, com nítida expressão de indignação e revolta.

O jornalista que trabalha para a Pan, revista Veja e o pastor Edir Macedo diz uma frase sem sentido e emenda:

“Primeiro, vocês vão perceber que ele ainda não sabe identificar ironias, não sabe identificar um ataque bem-humorado, e eu convido ele a provar em que momento em pedi que algum juizado fizesse isso. Eu disse apenas que o companheiro dele passa o tempo dele em Brasília. Ele passa o tempo todo lidando com material roubado. E eu disse: quem é que vai cuidar dos filhos? Era isso.”

Augusto mentia.

“Isso aí o juizado de menores deveria investigar”. Esta foi a frase final do comentário de Augusto que levou Glenn a considerar o ataque o “o mais sujo” do jornalismo mundial.

Hoje, depois que Augusto deu a explicação agressiva e, ao mesmo tempo, baseada numa falsidade, Glenn, sempre olhando para Augusto, disse:

“Você é um covarde, você é um covarde”. Augusto balbucia algo, incompreensível. Os dois estão com o dedo em riste. Augusto tenta, então, com a mão direita, acertar um tapa em Glenn, que se defende.

Os dois se levantam. E quando uma pessoa tenta separá-los, Augusto acerta com a mão esquerda espalmada o rosto de Glenn.

Com Glenn contido de um lado, Augusto grita:

“Eu te mostro quem tem coragem física.” Glenn avança na direção de jornalista bolsanarista, mas é seguro.

Emílio pede que cortem a transmissão. Mas ainda é possível ouvir os dois discutindo:

“Não vai me chamar de covarde, não,”, diz Augusto.

“Você um covarde”, repete Glenn.

“Covarde, mas não apanhou na cara”, afirmou o bolsonarista.

Alguns minutos depois, o programa retornou, apenas com Glenn Greenwald. Ele seguiu no programa com a condição de que não falaria sobre Augusto. Aceitou.

Para Jovem Pan, foi, certamente, um alívio. Augusto é prestador de serviços na casa e sua agressão poderia ser interpretada, judicialmente inclusive, como uma agressão da própria empresa.

Foi uma arapuca, da qual qual Glenn aceitou participar porque — disse mais de uma vez no programa — considera que é capaz de dialogar com qualquer um.

Com bolsonaristas como Augusto Nunes, descobriu agora que não é possível. Sobretudo na casa do adversário.

Augusto, que trabalhou em veículos importantes e tem história no jornalismo, mostrou mais uma vez, com sua presença física, seu linguajar desqualificado e sua postura covarde, a decadência da própria imprensa brasileira.

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