Avesso a governar, Bolsonaro nunca interrompeu a campanha eleitoral de 2018. Por Leonardo Sakamoto

Publicado originalmente na coluna de Leonardo Sakamoto

Bolsonaro inaugura obra no São Francisco como se fosse dele

Jair Bolsonaro gosta mais de fazer campanha eleitoral do que de governar. A possibilidade de inaugurar obras por todo o Brasil é encarada por ele, portanto, como um presente – ainda mais obras que foram tocadas por adversários, mas que ele pode assumir como suas. Quando se acostumar com essa rotina, vai ser fácil explicar ao presidente que poderá continuar se divertindo assim – desde que revise o teto dos gastos públicos, destinando mais recursos para obras a serem entregues em 2021 e 2022.

Não à toa, o “presente” tem sido dado pelos ministros da Infraestrutura, Tarcísio de Freitas, e do Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho, vistos como defensores da flexibilização da regra que impede que investimentos públicos aumentem mais do que a inflação.

Insere-se, nesse contexto, o comportamento revelado pelo Painel, da Folha de S.Paulo, deste domingo (30), de uma agenda de inauguração de obras de outros governos como se fossem de Bolsonaro. Há, ao menos, 33 programadas para o segundo semestre apenas na pasta de Infraestrutura.

Pelo que pode ser visto pelas inaugurações dos quais ele participou no Nordeste nos últimos meses, o roteiro é muito semelhante ao que ocorria em sua pré-campanha à Presidência. Uma convocação de fãs e seguidores do presidente ocorre pelas redes sociais e grupos de zap a fim de recebe-lo com festa no aeroporto e no local do evento. Fotos e vídeos são produzidos em ângulos para passar a ideia de que a região inteira veio abraça-lo, o que as imagens de plano aberto desmentem. O que importa, contudo, é que servem para construir a narrativa de que ele é tão amado pelo povo que ele veio espontaneamente para gritar “mito”.

Contudo, a população que ganha até três salários mínimo ama, neste momento, o auxílio emergencial de R$ 600/R$ 1200 mensais. E, de forma pragmática, garantiu a ele um aumento na aprovação de sua gestão por conta disso.

O Congresso Nacional, verdadeiro responsável pelo programa temporário de renda mínima, não foi competente como ele, que parasitou novamente os esforços alheios e assumiu a plena paternidade pela história assim como parasita as obras, monopolizando sua paternidade. Com isso, enquanto a reprovação do presidente caiu, a de deputados e senadores subiu durante a pandemia – 32% para 37% segundo o Datafolha de agosto.

Tomando gosto pela popularidade vinda da base do lulismo, Bolsonaro vai mandar catar coquinho qualquer um que disser que ele não pode revisar o teto para permitir que a sua reeleição, quer dizer, a retomada do crescimento seja feita com base em mais obras públicas e na transferência de renda. Manda fechar o Posto Ipiranga se necessário for.

O povo é pragmático. Sabe que inauguração de obras não enche barriga. Geração de empregos para novas obras, sim. E isso depende de investimento.

E não é só o povo que é pragmático, prefeitos também são. A pandemia nos fez esquecer, mas temos eleições em novembro e as inaugurações atraem candidatos às eleições municipais para a sua esfera de influência. Um presidente da República, com o controle da máquina federal, sempre é um grande eleitor. Um que inaugura obras em período de crise econômica, mesmo que não tenha muitos méritos por elas, é mais ainda. Atenderá, dessa forma, aos interesses de deputados federais do Centrão, que dependem dos administradores municipais para se reelegerem em 2022.

Até lá, o presidente vai capitalizando o sucesso do auxílio emergencial, mas o verdadeiro desafio para a sua popularidade começa quando o repasse for interrompido ou reduzido. O valor do Renda Brasil será bem abaixo do que tem sido desembolsado durante a crise, o que significa que Bolsonaro perderá popularidade. A questão é quanto.

Por isso, ele pressiona sua equipe para que o valor e o total de famílias beneficiadas sejam bem maiores que os números do Bolsa Família – que paga, em média, R$ 190 e beneficia 14,2 milhões de lares. O governo mira em R$ 300 e 20 a 30 milhões.

Outro desafio é quando o grosso das pessoas voltarem a procurar emprego passada a pior fase da pandemia e interrompido o auxílio, o que deve aumentar – e muito – a taxa de desemprego.

O povão mesmo não grita “mito”, nem vai à inauguração de obra. Está à distância, de olho para ver o que acontece. E, assim como veio, pode ir embora de uma hora para outra.

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