Back in London

Dezembro, em Londres

“A temperatura local é zero grau.”

Estou de volta a Londres. No avião passam inseticida logo depois que decolamos. É uma exigência do Reino Unido para vôos partidos do Brasil, somos informados.

Minhas pulgas estão em apuros.

O avião da British está cheio de torcedores do Internacional. Eles farão escala em Londres e partirão rumo a Abu Dhabi, na esperança do bicampeonato mundial de clubes. Dois estão do meu lado. Um deles diz que as marmeladas do futebol já tinham aparecido no ano passado, quando o Grêmio jogou para perder do Flamengo para evitar que o título fosse para o Inter. A torcida celerada, me contam, fez o que são-paulinos e palmeirenses fizeram agora: ameaçaram até deixar de torcer para o Grêmio caso o time batesse o Fla.

Foi para fazer isso que o Grêmio voltou da segunda divisão? — me pergunto.

Eles notam a secura do pessoal de bordo da British. “Os ingleses são antipáticos assim?”, me perguntam. Não. Não são. Mas, como os franceses, os ingleses não parececem ter nascido para servir. Não, pelo menos, dentro dos moldes estabelecidos pelas empresas americanas, cheios de sorrisos e bons dias artificiais e mandatórios.

Me despeço deles com um abraço. São gente boa, e digo que por causa deles vou torcer para o Inter. Decido que na primeira oportunidade que tiver farei o mesmo: viajarei para torcer pelo Corinthians.

Em Heatrow, o controle de passaportes é, como sempre, duro. Finalmente somos liberados, meus três filhos e eu. Um black cab, 60 libras e estamos em Ranelagh Gardens.

Os ingleses estão assustados.

Assustados com a violência de uma manifestação estudantil contra o aumento das mensalidades. A foto de Camila e Charles em seu carro sendo ameaçados impressiona e remete a tempos em que reis e czares podiam ser liquidados. Fisicamente.

Foram tiradas fotos dos manifestantes. Um deles, estudante de Cambridge, ganhou notoriedade nacional por ser filho de David Gilmour, guitarrista do Pink Floyd. Parecia possuído. Disse, depois, que estava simplesmente envergonhado do que fizera.

Mas está na cadeia.

Os ingleses também estão assustados com o terrorismo islâmico. Ontem a Suécia sofreu seu primeiro ataque terrorista. Nenhuma conexão com o Wikileaks. E uma ligação com o Reino Unido. Era um jovem extremista islâmico que morou na Inglaterra. Tinha fama de caseiro, simpático, bom marido, bom pai — enfim, todas aquelas coisas que deveriam evitar que alguém se tornasse um homem-bomba mas não evitam.

Zero grau. São duas e meia da tarde, e daqui a uma hora é noite.

Estou em Londres, e é muito bom, apesar da saudade que sinto de minha mãe.

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