Balotelli. Mario Balotelli.Ou, simplesmente, Supermario

Balotelli

 

E só se fala de Balotelli, Mario Balotelli, o Supermario.

Balotelli destruiu o favoritismo alemão na Eurocopa com dois gols.

Fora da Itália, onde nasceu, e da Inglaterra, onde joga pelo Manchester City, poucos o conheciam até ontem.

Aqui de Londres, acompanhei sua saga extraordinária. Desde logo, tive uma simpatia enorme por ele: a simplicidade, a timidez, a sinceridade, a modéstia, o orgulho de ser negro, o carisma natural, o jeito de bad boy, a atitude inquisitiva que o levou um dia a usar por baixo da camisa do time uma camiseta com a seguinte inscrição: “Por que sempre eu?” Tudo isso fora as virtudes de um centroavante que combina habilidade e vigor físico. Balotelli me lembra o Flávio do Corinthians dos anos 1960, meu ídolo dos dias em que eu era um garotinho que ia ao estádio com papai para ver nosso time ser massacrado pelo Santos de Pelé.

Balotelli é Deus hoje, mas quase foi o oposto ontem. Ele foi expulso numa partida do City no final do campeonato. O título parecia perdido, e então ele foi tirado do time. Os comentaristas disseram que ele não tinha jeito. Na reta final, o City conseguiu ganhar o campeonato, e assim sua carreira na Premier League foi salva.

Antes da Eurocopa, ele dissera que mataria quem jogasse bananas nele. O racismo é enorme entre os europeus. Era uma bravata, é claro, mas o fato é que ninguém atirou banana em sua direção.

Balotelli é de Palermo, filho de uma família de Gana. Pelas estatísticas, ele ganhou 20 anos de vida quando seus pais decidiram migrar para a Itália. Em Gana, a expectativa de vida de um homem é 59 anos. Na Itália, 79. Seus pai, quando ele era criança, decidiram dá-lo para adoção, por acharem que não teriam dinheiro para educá-lo. Aos três anos, ele acabou sendo entregue ao casal Francisco e Silvia Balotelli. Foi a ela que Balotelli dedicou os gols contra os alemães. Depois que a fama veio, os pais biológicos tentaram retomar o contato, mas Balotelli os acusou de “caçadores de glória”.

Balotelli é uma mostra dos limites de Mourinho, o ultravalorizado técnico do Real Madri. Mourinho, quando dirigia a Inter de Milão, mandou embora Balotelli. Disse que ninguém o entendia. Recentemente, Balotelli disse que só Mourinho não o entende, e por isso o problema está nele, Mourinho. Mas é preciso considerar que, num programa de tevê italiano ele compareceu com a camisa do Milan. Seria o equivalente a Romarinho aparecer na tevê brasileira com a camisa do São Paulo.

A melhor maneira de conhecer Balotelli é numa entrevista que a BBC fez. O entrevistador foi escolhido com esmero: Noel Gallagher, natural de Manchester e fanático do City. (O vídeo está abaixo deste texto.) Manchester, o berço da Revolução Industrial e dos grandes clubes de futebol da Inglaterra, e também a terra de bandas notáveis dos últimos vinte anos, como Joy Division, Smiths e, claro, o Oasis de Gallagher.

Várias coisas me chamaram a atenção na entrevista. Uma delas foi o bom inglês de Balotelli. Significa que ele está tentando se integrar ao mundo em que vive hoje. Por contraste, lembro de ver Robinho mostrar um inglês que não ia além de “the book is on the table” depois de quase um ano de Manchester City.

Pessoalmente, fora do campo, prefiro o estilo contestador de Balotelli à festa de marketing e purpurina que é Neymar. Quem faz o mundo mudar é gente como Balotelli.

Como jornalista, admirei o preparo de Gallagher. É uma lição de entrevista. Jovens jornalistas deveriam vê-la e discuti-la.

Depois do jogo contra a Alemanha, perguntaram a Balotelli por que ele não festejara o segundo gol. A resposta: “Apenas cumpri meu dever. Quando o carteiro entrega uma carta, ele por acaso comemora?”

Gênio.

Sócrates não teria dito frase mais sábia.

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