Bancada da Bíblia, violência doméstica, escola sem partido: por que vice de Covas foge do debate

Publicado na Mídia Ninja

Ricardo Nunes e Bruno Covas

Bruno Covas tem adotado uma linha “paz e amor” em sua campanha eleitoral. Faz críticas à direita bolsonarista e, ao mesmo tempo, adota um discurso contra a esquerda. Porém, será que seu centrismo resiste a um olhar mais detido sobre seu candidato a vice prefeito, Ricardo Nunes? Numa pesquisa rápida, logo se vê que não. Ricardo Nunes é um conservador da bancada religiosa da Câmara Municipal, tem no currículo a campanha permanente contra os direitos das mulheres e das LGBTQIA+ e, pelo que tudo indica, é líder de um grave esquema de corrupção: a máfia das creches.

Vereador no segundo mandato e filiado ao MDB, Nunes foi emplacado como vice na chapa do PSDB por pressão de João Doria, que mira sua candidatura em 2022 contra Bolsonaro e quer disputar, desde já como presidenciável, a coligação do seu partido com o MDB e o “centrão”.

O vice de Covas indicado por Doria é parte da “bancada da Bíblia” na Câmara Municipal, fez oposição aberta à educação sexual e para igualdade de gênero nas escolas, surfando na campanha conservadora do projeto Escola sem Partido em 2015, em meio ao processo de aprovação do Plano Municipal de Educação. Não bastasse o grave fanatismo da campanha encampada por Ricardo Nunes contra projetos educacionais que podem combater a violência de gênero, ele próprio também foi acusado de violência doméstica, ameaça, injúria e falta de pagamento de pensão por sua esposa em 2011, fato que segue sem respostas na campanha de Covas.

O PSDB querer se diferenciar da extrema direita bolsonarista, adotando um discurso pró Lava Jato, Sérgio Moro e Rede Globo, mas pode esconder sua longa história de corrupção, desde a privataria tucana dos anos 90 até o escândalo da Alstom na construção do metrô em São Paulo, desde o desvio de dinheiro público no Rodoanel até a máfia das merendas. A máfia das creches envolvendo o tal vice de Covas, Ricardo Nunes, é mais um capítulo dessa novela.

Nunes parece bastante sintonizado com o modo tucano de governar: com base em dados do IPTU e outras documentações, reportagens recentes apontam que ele mantém uma rede de entidades e empresas que administram e alugam imóveis para unidades de creches públicas municipais. Os responsáveis dessas entidades entrevistados apontaram Nunes como seu “chefe”. À contratação das entidades e empresas de seus funcionários, ex-funcionários e parentes se soma a fatura de aproximadamente 1,5 milhão de reais em contratos com a prefeitura.

As creches públicas municipais são a demanda mais urgente e necessária na vida da maioria das mulheres mães e trabalhadoras da cidade de São Paulo. Um modelo de administração direta dos centros de educação infantil, que sirva para o atendimento pleno, integral e de qualidade para as crianças na primeira infância é um direito que antecede vários outros. O modelo tucano, que aposta na administração privada desse equipamento público fundamental para o desenvolvimento e a sociabilização de nossos filhos, é um terreno fértil para esquemas corruptos com empresas.

Apenas a administração direta – com a valorização das profissionais da educação, de conselhos democráticos e da participação da comunidade escolar – pode garantir a educação plena das crianças e a socialização dos cuidados em prol de mulheres mães numa cidade em que são, de longe, as principais responsáveis pelas crianças. Sabendo quem é o vice na chapa tucana, impedir um segundo turno nas eleições municipais entre Covas e Russomano se torna ainda mais necessário. O conservadorismo e a corrupção privatista são inimigos dos direitos das mulheres, das LGBTIQA+ e das crianças.

Por tudo isso, nós da Bancada Feminista do PSOL protocolamos uma representação no Ministério Público Estadual solicitando a investigação de possíveis benefícios a Ricardo Nunes na “máfia das creches”, além de informações sobre inquérito já aberto em 2019 referente ao caso. Se forem confirmadas as relações do vice de Covas com esse esquema, a chapa do tucano precisa se tornar inelegível.

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