Banco Master tinha apenas R$ 4 milhões em caixa, diz diretor do BC em depoimento

Atualizado em 31 de janeiro de 2026 às 9:32
Entrada da sede do Banco Master em SP. Foto: reprodução

Em depoimento à Polícia Federal, o diretor do Banco Central Ailton Aquino afirmou que o Banco Master tinha apenas R$ 4 milhões em caixa pouco antes de o BC decretar a liquidação extrajudicial da instituição. O relato integra a investigação sobre a atuação do banco e foi prestado em 30 de dezembro. Os vídeos do depoimento foram tornados públicos nesta quinta-feira (29) por decisão do ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), relator do caso.

Ao explicar o monitoramento do Banco Master, Aquino destacou o porte da instituição e a gravidade da situação de liquidez. “Apesar de o Master ser um típico, nós chamamos S3, uma instituição de médio porte, dada a crise de liquidez do Master e com R$ 80 bilhões de ativos totais, o acompanhamento por parte da supervisão era fundamental para entender a liquidez”, afirmou.

Em seguida, detalhou a discrepância entre o padrão esperado e a realidade encontrada. “Para pontuar isso claramente: um banco de R$ 80 bi tem liquidez de R$ 3 bi, R$ 4 bi em títulos livres. O Master, antes da liquidação, só tinha R$ 4 milhões no caixa”, disse.

O Banco Master foi liquidado pelo Banco Central em novembro, após a identificação de alto custo de captação e exposição a investimentos considerados arriscados, com taxas de juros muito acima do padrão de mercado. A liquidação extrajudicial é o procedimento pelo qual o BC encerra as atividades de uma instituição que não tem mais condições de operar, nomeia um liquidante, encerra operações, vende ativos e paga credores conforme a ordem legal.

Ailton Aqui, diretor do BC. Foto: reprodução

Um especialista ouvido pelo Globo explicou que instituições com menor tradição precisam manter um nível de liquidez ainda mais elevado. “[Deveria ter] um caixa maior que uma instituição financeira de maior tradição com a mesma estrutura de passivos”, afirmou o economista Carlos Eduardo De Freitas, ex-diretor de Área Externa do Banco Central.

No depoimento, Aquino também citou problemas de pagamento envolvendo a Will Financeira, conhecida como Will Bank, integrante do conglomerado do Banco Master. Segundo ele, havia dificuldades recorrentes no fluxo financeiro.

“Outro problema, as contas, as grades da Will, pagamento da Will estavam sendo, aí, muita dificuldade o pagamento. O acompanhamento era por causa de antes da crise de liquidez. Se fechava ou não fechava o caixa”, relatou.

Antes da liquidação, a Will Bank estava sob Regime de Administração Especial Temporária do Banco Central, mecanismo usado para tentar preservar a operação e evitar prejuízos maiores aos clientes e ao sistema financeiro. De acordo com o BC, houve esforço para manter a instituição em funcionamento por interesse público.

Apurações indicam que a liquidação da Will foi postergada para possibilitar uma eventual venda a um investidor de origem árabe, negociação que acabou não avançando.

A situação se agravou após o descumprimento da grade de pagamentos com a Mastercard, o que levou à suspensão da aceitação dos cartões emitidos pelo banco. Em nota, o Banco Central afirmou que o impasse comprometeu a “situação econômico-financeira” da instituição e caracterizou sua insolvência.

Augusto de Sousa
Augusto de Sousa, 31 anos. É formado em jornalismo e atua como repórter do DCM desde de 2023. Andreense, apaixonado por futebol, frequentador assíduo de estádios e tem sempre um trocadilho de qualidade duvidosa na ponta da língua.