Barroso fez história no STF ao falar da influência da mídia

Ponto para ele
Ponto para ele

Barroso já foi objeto de contundentes e merecidas críticas do Diário pela absurda defesa da reserva de mercado na mídia que fez quando era advogado do órgão de lobby da Globo, a Abert.

Mas ontem, ainda que com rapapés excessivos, ele deixou registrada para a posteridade a abjeta mancha que vem marcando o STF sob JB no julgamento do mensalão: a busca insana de muitos juízes pela “manchete do dia seguinte”.

É enorme, de fato, a influência da mídia no comportamento dos juízes. Eles gostaram dos holofotes proporcionados a cada pancada desferida nos acusados. A adulação da mídia – calculada, cínica – encontrou no STF presas fáceis.

Barroso acertou em cheio.

Na sessão de ontem, ele falou especificamente para Marco Aurélio Mello, mas o ponto serviu a muitos.

Marco Aurélio vive num mundo à parte. Em sua interminável fala de ontem, ele chegou a dizer que estava provavelmente perdendo a imagem de “jurista progressista e liberal” com seu voto a favor da punição.

Pausa para rir.

Onde esta fama? Que ele fez para merecê-la? Na ditadura, por exemplo, qual foi sua atitude? Essa fama só existe em sua mente presunçosa.

Marco Aurélio Mello é, antes, símbolo de um STF canhestro. Em sua ânsia de punir, muitos juízes conseguiram esquecer que o recurso aos embargos infringentes – e isso está na Constituição – daria uma nova chance aos réus, caso advogados de defesa competentes fizessem direito seu trabalho.

Fizeram – ao contrário da inépcia dos magistrados que se preocupavam em aparecer no Jornal Nacional e na Veja com falas ocas como dosimetria.

Barroso prestou um serviço à sociedade ao dizer o que move Mello e alguns companheiros.

De resto, ele foi oportuno: no momento em que pediu a palavra, Mello e outro juiz de atitude deplorável, Gilmar Mendes, se entregavam a um diálogo cujo único objetivo era pressionar o decano do STF, ao qual caberá na semana que vem o voto decisivo.

Rapidez, agora, é um erro monumental, tais e tantas as dúvidas. Décadas depois, vemos hoje como a Anistia votada às pressas para contemplar os interesses dos militares voltou à agenda para assombrar os brasileiros com um sentimento doído de injustiça história.

O mesmo risco se corre agora com o julgamento do mensalão. O veredito – tal como dado no final do ano passado – fatalmente retornará no futuro para assombrar os brasileiros, caso não seja submetido a uma checagem em que a “manchete do dia seguinte” não conte tanto.