BBC admite que não “verificou dados” de matéria contra Cuba e publicou mesmo assim

Atualizado em 20 de abril de 2026 às 15:34

Uma reportagem da BBC sobre um suposto império bilionário ligado a líderes cubanos traz uma admissão que chama atenção no próprio texto: “A BBC não conseguiu verificar estes dados de forma independente”.

A frase, inserida no meio da matéria, não é periférica. Ela atinge o núcleo da informação publicada, que envolve cifras astronômicas e acusações sobre a estrutura econômica do país.

Ainda assim, mesmo reconhecendo que não conseguiu confirmar os dados, o veículo opta por publicá-los. A reportagem interminável se baseia em documentos vazados para o Miami Herald e análises externas, sem validação independente.

Isso levanta uma questão direta: se a informação não foi verificada, por qual motivo foi transformada em notícia?

A matéria trata do conglomerado Gaesa, ligado às Forças Armadas de Cuba, e menciona valores superiores a US$ 17,9 bilhões. A dúvida não está fora da reportagem. Ela está dentro dela, declarada.

O problema piora quando se observa a fonte. Segundo a própria BBC, em 2006, os jornais Miami Herald e El Nuevo Herald empregavam repórteres e freelancers que recebiam pagamentos do governo dos Estados Unidos para produzir material de propaganda anti-Castro.

O episódio levou à demissão de três jornalistas e provocou uma crise interna sobre independência editorial, conflito de interesses e o papel do jornal em um contexto político sensível. O publisher do Miami Herald, Jesus Diaz Jr, foi afastado.

A Veja usou esse truque em uma matéria sobre Lula que virou piada. Era mais uma capa bombástica, mas vinha de brinde um box confessando que a revista não conseguiu confirmar nada, mas estava dando do mesmo jeito por “interesse público”.

É mais um capítulo patético da decadência de uma vetusta instituição do jornalismo. Em novembro, o então diretor-geral da BBC, Tim Davie, e a diretora de jornalismo Deborah Turness deixaram seus cargos após o vazamento de um documento interno que criticava a edição de uma fala do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

O memorando foi elaborado por Michael Prescott, ex-assessor e consultor independente do conselho editorial da BBC, que passou a ser francamente pró-Trump.

Um relatório do Centro de Monitoramento da Mídia do Reino Unido, que analisou mais de 35 mil matérias da BBC publicadas entre outubro de 2023 e maio de 2025, aponta um padrão na cobertura sobre Gaza com maior espaço para perspectivas israelenses e menor presença de vozes palestinas.

De acordo com o levantamento, as mortes palestinas — estimadas em mais de 42 mil no período analisado — receberam 33 vezes menos atenção por incidente do que as mortes israelenses. O estudo também indica diferenças na linguagem utilizada: o termo “assassinato” foi aplicado 220 vezes a vítimas israelenses e uma vez a palestinos, enquanto “massacre” apareceu 18 vezes mais em referência a israelenses.

O relatório ainda registra que autoridades e comentaristas israelenses foram entrevistados mais que o dobro de vezes em comparação com palestinos ao longo da cobertura analisada.

Kiko Nogueira
Diretor do Diário do Centro do Mundo. Jornalista e músico. Foi fundador e diretor de redação da Revista Alfa; editor da Veja São Paulo; diretor de redação da Viagem e Turismo e do Guia Quatro Rodas.