Bets se tornam principal causa de endividamento no Brasil, diz pesquisa

Atualizado em 26 de março de 2026 às 16:58
Plataforma de apostas online em celular. Foto: Reprodução

As apostas online se tornaram o principal fator de endividamento das famílias brasileiras, superando o peso tradicional do crédito e dos juros. Um estudo do Ibevar (Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo) e da FIA Business School aponta que as bets já têm maior impacto na formação de dívidas do que variáveis históricas do sistema financeiro.

A pesquisa analisou quatro fatores: crédito em relação à renda, juros ao consumidor, tempo de endividamento e apostas. O resultado mostrou que o coeficiente das bets (0,2255) supera com folga o crédito (0,0440) e os juros (0,0709).

Mesmo somados, esses dois fatores ficam abaixo do impacto das apostas no orçamento das famílias. Segundo o estudo, a expansão das bets após a legalização em 2018 e a popularização a partir de 2019 alterou a dinâmica do endividamento.

“O impacto das apostas online é quase o dobro da soma dos dois fatores tradicionais”, afirmou Claudio Felisoni, presidente do Ibevar. Ele também apontou um deslocamento de renda para atividades de retorno negativo.

“O padrão sugere deslocamento de recursos de atividades produtivas e poupança de longo prazo para apostas de retorno esperado negativo”, prosseguiu.

Edifício-Sede do Banco Central do Brasil em Brasília. Foto: Divulgação

O impacto é maior entre famílias de baixa renda, que acabam recorrendo a crédito caro, como cartão e cheque especial, para cobrir perdas. Dados do Banco Central indicam que 101 milhões de brasileiros usam cartão de crédito com juros elevados, e 49 milhões pagam taxas que chegam a 100% ao ano.

O cenário é agravado por juros elevados no país. A taxa Selic segue no maior patamar desde 2006, influenciando toda a cadeia de crédito. A inadimplência também cresceu, passando de 5,6% para 6,9% em um ano, enquanto o comprometimento da renda chegou a 29,2%, o maior nível já registrado.

O volume financeiro das apostas também cresceu. Em 2025, a receita bruta das bets autorizadas atingiu R$ 37 bilhões, segundo dados oficiais. Ao mesmo tempo, 39,5 milhões de brasileiros apostaram no período e cerca de 7,5 milhões admitiram ter comprometido parte da renda com jogos.

Especialistas ouvidos pelo UOL defendem medidas para conter o avanço das apostas. A planejadora financeira Ana Leoni afirma que é preciso limitar a publicidade e o comportamento do consumidor. “O excesso de publicidade acaba levando a pessoa à distorção de uma realidade, de que ela pode ganhar muito dinheiro de forma rápida”, disse.

Ela também recomenda estabelecer limites: “A dica é sempre limitar o acesso, definindo limites de valor financeiro”.

Caique Lima
Caique Lima, 27. Jornalista do DCM desde 2019 e amante de futebol.