Beyoncé e o feminismo machista

Feminismo soa, ainda hoje, como algo moderno. Sociedade igualitária, homens e mulheres dividindo tarefas domésticas, contas, responsabilidades.

Todos os casais de amigos da minha faixa de idade, perto dos 30, funcionam muito diferente da maioria de seus pais. Como eu, vários casais se dividem assim: ela paga metade das contas, e ele, outra metade. Ou quem está mais bem colocado profissionalmente assume as contas – mas não precisa ser necessariamente o homem. Um amigo meu cuja ex-esposa tinha uma boa posição numa empresa de alimentação, vivia assim. Sem problemas, sem constrangimento.

O feminismo nasceu como busca pela igualdade entre homens e mulheres. Sabe-se de movimentos e teorias nesse sentido desde antes de 1800. E a Beyoncé, pelo teor de suas letras, é vista como uma feminista muito influente.

Mas será?

Há algum tempo que tenho achado que há algum lugar onde a conta não fecha nas letras da moça. Fui ao Google e notei que não estou sozinho. É claro que encontra-se qualquer coisa sobre qualquer um no Google, mas há artigos em vários veículos que admiro, como o The Independent e o Huffington Post.

A análise de Bianca Pencs no Huff Post fala sobre o paradoxo entre o feminismo que há nas letras em oposição à aceitação de uma posição, digamos, de objeto sexual. “Como sempre, sua dança é altamente sexual. Será que a mensagem de poder feminino ressoa no público ou fica ofuscado pela clara tentativa de chamar atenção do olhar masculino?”

Beckie Smith, do The Independent, acha há uma incoerência na mensagem. “’Run The World’ é um hino feminista. Mas é mesmo? À primeira vista soa como uma mensagem de poder às mulheres. Mas numa segunda leitura, a letra é problemática e além de tudo imprecisa nos fatos. A música parece ser mais sobre dominância e agressividade sexual feminina do que igualdade ou poder de verdade”.

Mas me parece que a verdade está mais ou menos no meio dessas duas análises. “Run The World”. Ela não é problemática. É ingênua. Parece a música-tema do jogo de queimada das meninas contra os meninos da 3.a série C da escola aqui perto. A líder grita: “quem manda no mundo?” E as pré-adolescentes respondem: “meninas!”

“Irrepleaceble” é uma afirmação de Beyoncé como mulher independente. “Todas as suas coisas estão numa caixa ali na esquerda. No armário, estão as minhas”. Ela não precisa dele. Ele anda por aí com o carro que ela comprou. “Eu posso ter outro você em um minuto. Na verdade, ele estará aqui em um minuto”.

Para mim, soa muito mais como uma enorme desvalorização dos indivíduos. Ter outro você em um minuto é tipo fast food de gente? E será que alguém bem resolvido escreve isso? E será que um homem que escrevesse isso seria aplaudido? E se for, será que merece os aplausos?

Mas nenhuma música é mais símbolo da confusão que Beyoncé faz com feminismo do que “All The Single Ladies”. Ela passa todos os versos dando lição de moral no cara que não é mais namorado dela – ou da menina que está ouvido. Mas entrega a romantismo naïve no refrão: “se você queria, então deveria ter colocado um anel nisso”. E mostra o dedo anelar.

Quer dizer, se ela é uma feminista… por que ela não colocou um anel no dedo do cara? Ou por que raios ela se importa com o anel?

É bom lembrar que nada disso significa que a Beyoncé seja ruim. Talvez um pouco incoerente. Mas, ao mesmo tempo, quem não é um pouco incoerente?

Além disso, sua qualidade musical, independentemente das letras, é uma grandiosidade. Melodicamente falando, e tecnicamente falando. Eu mesmo já escrevi aqui que ela seria a próxima rainha quando a Madonna perdesse o posto. Agora já acho outra coisa: ela já é.

Mas… pra citar uma querida fã de Beyoncé que conheço… “ela precisa ver isso aí”.

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Emir Ruivo é músico e produtor formado em Projeto Para Indústria Fonográfica na Point Blank London. Produziu algumas dezenas de álbuns e algumas centenas de singles. Com sua banda, Aurélios, possui dois álbuns lançados pela gravadora Atração. Seu último trabalho pode ser visto no seguinte endereço: http://www.youtube.com/watch?v=dFjmeJKiaWQ