
“A Conspiração Condor” é um filme brasileiro de ficção, com lançamento previsto para este ano, que se debruça sobre um dos episódios mais sensíveis da história política recente do país.
Dirigido e roteirizado por André Sturm em parceria com Victor Bonini, o longa, estrelado por Mel Lisboa, acompanha a investigação de uma jornalista a respeito das mortes suspeitas dos ex-presidentes Juscelino Kubitschek e João Goulart, ambas ocorridas em 1976, e levanta a hipótese de que os óbitos teriam relação com uma articulação conspiratória.
Além de Mel Lisboa, o elenco reúne Dan Stulbach, Zé Carlos Machado, Douglas Simon, Nilton Bicudo, Maria Manoella e o jornalista Pedro Bial.
Apresentador da TV Globo há mais de 45 anos, Bial teve, ao longo da carreira, participações pontuais no cinema, especialmente como dublador. Ele emprestou sua voz a produções como “Shrek 2” e “Desenrola”. Em 2012, participou do filme “As Aventuras de Agamenon, o Repórter”, interpretando a si mesmo, e, em 2017, assumiu um papel ficcional em “Bingo: O Rei das Manhãs”, no qual viveu o personagem Armando.
Embora o cinema não seja seu principal ofício, foi em 2024 que a atuação ganhou maior destaque em sua trajetória, com a oportunidade de integrar o elenco de “A Conspiração Condor”.
O dado curioso, irônico — e para alguns até mórbido — é o personagem histórico que coube a Bial interpretar: o jornalista e político Carlos Lacerda, símbolo do golpismo da imprensa brasileira.
Lacerda ficou marcado como um dos principais líderes da UDN, orador de discursos inflamados, perseguidor de Getúlio Vargas e defensor entusiasmado do golpe militar de 1964 — e depois traído pelos generais. Jornalista de retórica persuasiva, construiu sua imagem pública como paladino da moral, ao mesmo tempo em que atuou ativamente para a desestabilização de governos eleitos.
▶️ Trailer de
“A Conspiração Condor” de André Sturm, com Mel Lisboa e Dan Stulbach!Dois ex-presidentes morrem em um curto espaço de tempo e uma jornalista tenta descobrir se isso pode ser uma conspiração ou apenas coincidência.
🗓 O longa chega aos cinemas dia 9 de abril. pic.twitter.com/mj8KfgTisd
— Nerdão Geek ® (@NerdaoGeek) December 24, 2025
Há paralelos biográficos e simbólicos entre intérprete e personagem, embora Lacerda fosse brilhante e Bial seja medíocre. Assim como Lacerda, Pedro Bial é carioca e jornalista, e utilizou por anos seu espaço midiático como tribuna política. Carlos Lacerda nasceu Carlos Frederico, nome escolhido pelo pai em homenagem a Karl Marx e Friedrich Engels. Maurício Lacerda, seu pai, era comunista, defensor de greves operárias e do movimento anarquista, e, ao lado dos irmãos, teve atuação relevante no PCB.
Carlos Lacerda, porém, rompeu mais tarde com o partido, alegando que suas ideias conduziriam a uma ditadura. Bial, por sua vez, é filho de Pedro Hans Bial, um publicitário judeu que fugiu da Alemanha nazista de Adolf Hitler em 1940. Chegou a tecer elogios públicos ao fascista Olavo de Carvalho, a quem definiu, em entrevista, como “brilhante pensador, agudo e arguto”.
Bial disse orgulhoso que foi o primeiro a promover Olavo como filósofo, “indo na maré contrária à vasta antipatia às suas ideias”. Também ficou marcada sua entrevista complacente com Sérgio Moro, a quem Bial sempre fora “paga pau”.
Em 2018, durante participação no Programa do Jô, Pedro Bial foi publicamente confrontado por Jô Soares após relativizar o golpe militar que deu origem à ditadura instaurada no Brasil entre 1964 e 1985. À época apresentador do Big Brother Brasil, Bial afirmou que o episódio histórico é chamado por diferentes setores de “revolução”, “golpe” ou “contragolpe” e até “movimento”.
A reação de Jô Soares foi imediata. O apresentador o interrompeu para corrigir a fala: “É golpe, não faça média, foi um golpe!”. Bial insistiu na ideia de “contragolpe”, o que levou Jô a questionar de forma incisiva: “E qual foi o golpe?”.
Na sequência, Jô ironizou a argumentação, arrancando risadas da plateia ao perguntar, em tom sarcástico: “Ah sim, então foi um contragolpe antes do golpe?”. A intervenção, embora marcada pelo humor característico do programa, deixou evidente a crítica à tentativa de suavizar ou relativizar o caráter golpista do regime militar.
Bial chegou a rir da situação e, visivelmente constrangido, tentou explicar seu ponto posteriormente, sem sucesso.
Em 2021, no programa Manhattan Connection, o jornalista afirmou que só entrevistaria o então ex-presidente Lula se pudesse utilizar um polígrafo. Recentemente, em entrevista a Marcelo Tas, declarou-se arrependido da declaração.
Em 2020, criticou duramente o documentário “Democracia em Vertigem”, de Petra Costa, em uma tentativa de defender a linha editorial da TV Globo. Autor da biografia de Roberto Marinho, Bial é o maior bajulador recorrente da emissora e da oligarquia que controla a chamada “Vênus platinada”.
O lacerdismo — entendido como a tradição jornalística de perseguição política sob o verniz da moralidade — segue vivo na figura de Pedro Bial, tanto nas telas do cinema quanto fora delas.
Carlos Lacerda já foi retratado diversas vezes no audiovisual brasileiro. O personagem foi vivido por Carlos Cabral na minissérie “Agosto” (1993), por Pedro Gustavo no documentário “Lacerda” (1996), por Marcos Palmeira no filme “Bela Noite para Voar”(2005), por José de Abreu na minissérie JK (2006), por Marcello Airoldi em “Flores Raras”(2013) e por Alexandre Borges no filme “Getúlio” (2014).