Boechat foi autêntico até quando reconheceu o erro pela má conduta numa disputa empresarial. Por Joaquim de Carvalho

Boechat na Band News

Trabalhei com Ricardo Boechat no jornal O Globo. Ele era responsável pela Coluna do Swann, que mais tarde levaria seu nome, e eu, repórter na sucursal de São Paulo.

Um episódio define bem como era Boechat e o valor que dava à essência do jornalismo: a notícia, de preferência exclusiva.

Eu gostava de passar notas para a coluna de Boechat, que ele sempre publicava, com o devido crédito. Nunca tínhamos nos visto pessoalmente.

Um dia, ele veio a São Paulo e fez questão de me cumprimentar em público. “Quem é o Joaquim?”, perguntou ele, no meio da redação.

Apresentei-me e ele disse: “Obrigado pelas notas. Sem repórteres como você, o jornalismo acaba”, disse ele, exagerado.

Para mim, a fala define bem a paixão que move todo jornalista: a busca incansável pela informação inédita, que tenha relevância e atenda ao interesse público.

Mais tarde, troquei O Globo pela Veja e, oito anos depois, nos encontraríamos de novo na TV Globo, ele como colunista do Bom dia Brasil.

Quando Veja vazou o áudio com a conversa entre Ricardo Boechat e Paulo Marinho, braço direito do controverso empresário Nélson Tanure, foi uma decepção.

Por telefone, Ricardo Boechat leu para Paulo Marinho um texto que seria publicado em O Globo, com informações negativas para o concorrente de Tanure, Daniel Dantas.

A matéria tá muito bem-feita, meu querido. Tá na conta. Não precisa botar mais p… nenhuma, não. O resto é como você falou: é adjetivação que você não pode colocar. (…)”, disse Paulo Marinho, hoje muito amigo de Jair Bolsonaro.

Boechat também havia orientado o chefe de Paulo Marinho, Nélson Tanure, sobre como se comportar num encontro com João Roberto Marinho, um dos donos do Globo.

Quando o áudio foi transcrito pela revista, Boechat explicou, publicamente, que seu interesse era pela notícia e, nesse trabalho, conversava com pessoas de todo tipo.

Ficou ruim, e ele foi demitido das organizações Globo depois de 31 anos na empresa. Em um artigo,  reconheceu que errou, mas não por dinheiro ou dolo.

“Cruzei a barreira da boa conduta profissional por um motivo tolo: vaidade. A vaidade de me supor em posição de prestígio nos dois maiores jornais de minha cidade (Tanure havia cobrado o Jornal do Brasil) cegou a autocrítica com que sempre procurei orientar minha atividade jornalística”, disse ele.

Alguns meses depois, foi para a TV Bandeirantes, mais tarde para a rádio Band News e, depois,  se tornou colunista da revista IstoÉ.

Na difícil tarefa de manter uma comunicação incessante com o público, Boechat já desagradou a direita e a esquerda.

Muitas vezes, falou demais, e chegou a reconhecer o exagero.

Mas seria desonesto se não reconhecesse em Boechat um jornalista autêntico no que diz respeito à busca pela notícia.

Ele era daqueles profissionais que, diante de uma informação importante, de preferência exclusiva, deixam transparecer o brilho nos olhos e seriam capazes de gritar:

“Parem as máquinas”.

Hoje, as máquinas pararam, para dar a notícia de sua morte.

 

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