A grande falha do “Bolsa Crack”

Não basta o governo de SP disponibilizar R$ 1350 mensais para os viciados se tratarem: é preciso também ajudá-los a se reinserir na sociedade, senão o risco de recaída é alto.

Legenda
A medida é valida como um primeiro passo, mas é preciso ir além dela

O governo de São Paulo lançou, ontem, um projeto que foi rapidamente apelidado de “Bolsa Crack”. Funciona assim: famílias que possuem dependentes receberão mensalmente um cartão com R$ 1 350 de crédito, que pode apenas ser usado em clínicas credenciadas de reabilitação. A ideia é permitir um novo começo ao usuário de drogas, suprindo a falta de instituições públicas através do financiamento de clínicas privadas, que geralmente são extremamente onerosas para a família. Ainda não temos informações de como exatamente será a escolha destes pacientes, de quais receberão o benefício, nem ao certo de quais clínicas participarão.

Do ponto de vista paliativo, a medida é realmente válida; não seria a primeira vez que o governo arcaria com os custos de serviços particulares para suprir a falta de recursos públicos. Entretanto, a questão é: clínicas de reabilitação são eficazes?
Convivo com casos de usuários de drogas na família desde criança e trabalhei na Fundação Casa durante a faculdade, dando aulas sobre dependência química, período no qual tive muito contato com menores infratores usuários dos mais diversos tipos de drogas. O que eu observei com esta experiência e após ver uma parente internada mais de 38 vezes e outro ser internado três vezes e ser preso duas, é que isto não é eficaz. Há clínicas bem intencionadas, que seguem uma rotina rígida; há outras, contudo, em que não há rotina nenhuma e nas quais as drogas entram, às vezes com a cumplicidade do próprio dono.

Mas, mesmo que isto não ocorra e que a rotina rígida da clínica realmente evite que o usuário utilize a droga por meses, o que acontece quando ele sai? Como ele pode reestruturar toda a sua vida, que girava em torno do uso de drogas, o que é essencial para a sua reabilitação? Se não o fizer, voltará ao seu círculo de amigos, passará diante dos mesmos bares, dos mesmos locais onde usava; sentirá seu nariz coçar e fungará toda vez que pensar ou ouvir falar em cocaína, salivará ao pensar em bebidas, lembrará inevitavelmente da brisa da maconha. Como evitar tudo isso?

Em artigo publicado no jornal Estado de Minas, estado que apresenta um programa semelhante, o subsecretário de Estado de Políticas Antidrogas, Cloves Benevides, afirma que os índices dos melhores serviços indicam que a metade dos usuários irá recair. No mínimo. No Centro Mineiro de Toxicomania, em 2010, 40% eram casos de recaídas, e 60% de casos novos.

É necessária uma força de vontade imensurável para abandonar tais vícios, encontrada apenas em raras pessoas. Conheci usuários que perderam tudo, tentaram suicídio, sobreviveram, recomeçaram a vida do zero, apenas para recair novamente. O apoio familiar é essencial, mas não é tudo; muitas vezes não basta. Incorro na repetição em dizer que mais dinheiro deveria ser deslocado para o combate ao tráfico, a prevenção ao uso e ao apoio social dos usuários. Entretanto, contanto que o “Bolsa Crack” seja apenas um dos primeiros passos, talvez uma medida de contenção ajude em alguma coisa. Assim espero.

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David Nordon é médico e escritor. Seu sonho é fazer pessoas plégicas recuperarem seus movimentos. E, enquanto não faz isso, dá seus pitacos sobre saúde, tecnologia y otras cositas más aqui na Diário.