Bolsonarista fugitivo do 8/1 engana Itamaraty e PF, consegue passaporte e vai à Europa

Atualizado em 2 de fevereiro de 2026 às 8:54
O bolsonarista Apolo Carvalho da Silva, de 28 anos. Foto: Reprodução

O bolsonarista Apolo Carvalho da Silva, réu pelos atos golpistas de 8 de Janeiro e foragido da Justiça brasileira, conseguiu enganar a Polícia Federal (PF) e o Itamaraty, obteve um novo passaporte mesmo com mandado de prisão em aberto e ordem judicial para impedir a emissão de documentos, deixou o México e chegou à Europa, onde pediu “proteção internacional” ao governo da Espanha, conforme informações do UOL.

Erros no uso dos sistemas do Itamaraty e da PF, além da falta de comunicação entre servidores, permitiram que Apolo burlasse determinações judiciais e deixasse o país. O bolsonarista, de 28 anos, responde por incitação ao crime e associação criminosa no âmbito dos ataques de 8 de Janeiro.

O próprio Itamaraty reconheceu que houve “falha” e “concessão indevida de passaporte comum”, e o documento só foi cancelado em 29 de janeiro. Em nota, o ministério afirmou que iniciou uma revisão das práticas de emissão de documentos de viagem “para evitar equívocos como o que lamentavelmente ocorreu no México”.

Histórico de fugas pela América Latina

Em 2024, Apolo fugiu do Brasil e se juntou a outros investigados pelos ataques aos Três Poderes que haviam se refugiado na Argentina. Meses depois, ele participou de uma nova fuga, passando por Peru e Colômbia. O grupo seguiu então para o México e alguns chegaram aos Estados Unidos, onde foram presos.

Apolo permaneceu no México entre janeiro e dezembro do ano passado, estabelecendo-se no estado de Querétaro, a cerca de 200 km da capital, onde trabalhava como mecânico. Esta foi a base a partir da qual ele articulou sua terceira fuga.

Pedido de passaporte com boletim falso

Em 2 de setembro de 2025, Apolo foi à Cidade do México e registrou um boletim de ocorrência no qual afirmou ter “perdido” o passaporte. “Perdi meu passaporte no centro da Cidade do México. Eu me dei conta da falta do documento ao chegar ao hotel”, mentiu o bolsonarista. “Estava no México como turista.”

Com o boletim em mãos, ele checou a lista de documentos exigidos pelo consulado brasileiro e apresentou carteira de motorista original, segunda via da certidão de nascimento obtida pela internet, título eleitoral digital, comprovante de pagamento de multas por não ter votado nas eleições de 2024 e o número do CPF. Também informou um endereço falso para evitar ser localizado.

Naquele momento, Apolo estava sob determinação do ministro do STF Alexandre de Moraes, que o obrigava a usar tornozeleira eletrônica, permanecer em casa, não deixar o país e entregar o passaporte. A decisão também ordenava que a Polícia Federal e o Itamaraty tomassem “todas as providências necessárias para obstar a emissão de quaisquer outros passaportes em nome do investigado”.

O passaporte original havia sido entregue por Apolo em 18 de setembro de 2023 à Vara de Execuções Criminais de Uberaba (MG). Mesmo assim, nada disso foi verificado pelos funcionários do consulado brasileiro no México.

Mandado de prisão está em aberto desde 2024
Mandado de prisão do bolsonarista Apolo Carvalho da Silva está em aberto desde 2024. Foto: Reprodução

Documento foi emitido dentro de área brasileira

O novo passaporte foi emitido em 29 de setembro e assinado pelo vice-cônsul Gustavo Alexandre Magalhães, com a justificativa de ter sido “concedido em substituição a passaporte extraviado”. O consulado funciona na Cidade do México, onde também operam a Embaixada do Brasil e dois representantes da Polícia Federal, um delegado e um agente.

Apesar disso, nenhum dos servidores envolvidos identificou que Apolo tinha mandado de prisão expedido em setembro de 2024, nem que havia ordens expressas para cancelamento e bloqueio de documentos.

Passaporte novo foi expedido por consulado no México em 2025
Passaporte novo do bolsonarista foi expedido por consulado no México em 2025. Foto: Reprodução/UOL

Após conseguir o passaporte, Apolo permaneceu no México por mais algum tempo, levantando dinheiro para comprar a passagem aérea. Em dezembro, embarcou para a Espanha, onde foi recebido por outro apoiador do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), Oswaldo Eustáquio.

Já em território espanhol, procurou a polícia em Almería, a cerca de 540 km de Madri, e formalizou o pedido de “proteção internacional”. Ele vive atualmente na capital espanhola e deverá se apresentar no dia 16 de abril à brigada da Direção Geral da Polícia para a primeira audiência do processo.

Apolo será acompanhado pelo advogado Fábio Pagnozzi, defensor da ex-deputada Carla Zambelli, que também está foragida e foi presa na Itália. A expectativa da defesa é repetir o desfecho obtido por Oswaldo Eustáquio, que conseguiu proteção na Espanha e não foi extraditado.

“A Espanha se mostrou muito receptiva às pessoas do 8 de Janeiro”, afirmou Pagnozzi ao UOL. Segundo ele, o pedido equivale a asilo político e se baseia na alegação de “perseguição política” contra opositores no Brasil.

Em recurso à Espanha, governo deve dizer que Oswaldo Eustáquio cometeu crimes comuns e não será perseguido no Brasil | G1
Oswaldo Eustáquio e Jair Bolsonaro. Foto: Reprodução

Provas da invasão aos Três Poderes

Vídeos encontrados no celular de Apolo e analisados pela perícia da Polícia Federal mostram o arte-finalista dentro das invasões de 8 de janeiro de 2023, usando boné branco, máscara improvisada com a bandeira do Brasil e camiseta azul. Em alguns registros, é possível ouvir frases como “tá invadido”, “tudo nosso” e “é nosso”, conforme laudo do perito Jorge Ricardo Oliveira.

Apesar disso, Apolo foi preso apenas no dia seguinte, no acampamento em frente ao quartel-general do Exército, o que impediu que fosse denunciado por crimes mais graves, como golpe de Estado, dano ao patrimônio e abolição violenta do Estado democrático de Direito.

Em janeiro de 2024, Apolo recusou um acordo com o Ministério Público que encerraria o processo mediante confissão, pagamento de multa de R$ 20 mil, prestação de serviços comunitários e participação em um curso sobre democracia. A defesa sustenta que as acusações são genéricas e que ele temia ser preso por descumprimentos de horário relacionados à tornozeleira eletrônica.

Segundo Pagnozzi, o arte-finalista também receia que, ao retornar ao Brasil, o Ministério Público utilize a perícia do celular para pedir o agravamento da pena, incluindo acusações de golpe de Estado e dano ao patrimônio.