Bolsonaro atentou contra o decoro e deveria ser afastado, mas vai continuar: está blindado pela indecente reforma da Previdência

Bolsonaro e o vídeo pornográfico que divulgou

O que é mais indecente: a proposta de reforma da Previdência ou o vídeo pornográfico que Jair Bolsonaro postou no Twitter?

As duas são um atentado à paz social, mas é impossível que Bolsonaro sofra danos políticos mais sérios por conta da mudança nas regras da aposentadoria.

Já, em relação à pornografia ou obscenidade, ele está isolado.

Prova disso é que Bolsonaro tem apanhado muito na internet desde ontem à noite, e seus tradicionais defensores se mantiveram em silêncio.

Fica difícil para um parlamentar evangélico, núcleo central da base de apoio de Jair Bolsonaro, defender a divulgação daquelas imagens.

Poderia se alegar descontrole emocional do presidente, diante da surra moral que tomou das massas que frequentaram os blocos.

Mas, nesse caso, seus aliados dariam razão a quem já começa a articular uma proposta para obrigar o presidente a se submeter a um exame psiquiátrico, como cogita o líder do PT, Paulo Pimenta.

Nos Estados Unidos, os deputados democratas têm proposta parecida em relação a Donald Trump.

Em comum entre Trump e Bolsonaro, está a tática de partir para o ataque quando pressionados.

Nessa estratégia, não importam fatos, mas a versão que dão a fatos.

Trump diz que notícias verdadeiras que lhe são incômodas não passam de fake news. Bolsonaro faz a mesma coisa.

Trump acusa adversários de ameaçarem a democracia quando denunciam malfeitos dele ou suspeitas de abuso de poder.

Bolsonaro faz a mesma coisa, provavelmente porque tenham em comum o mesmo conselheiro: Steve Bannon, guru da extrema direita mundial.

Mas o que aconteceria com Trump se divulgasse, ele próprio, em sua conta pessoal, um vídeo como aquele postado por Bolsonaro?

Dificilmente se manteria no cargo.

Trump pode ser muita coisa, mas não é burro.

Já Bolsonaro… ele perde o controle quando é confrontado, o que caracteriza a falta de condições para o exercício do que já foi chamado de a primeira magistratura do Brasil.

Bolsonaro gosta de rolar na lama.

Esse comportamento lhe trouxe popularidade como deputado federal.

No exercício da presidência, é nocivo, indevido, inadequado e impróprio, e caberia afastamento.

Porém, o processo de impeachment é sempre uma decisão política, embora não faltariam bases legais caso um movimento desse tipo chegasse ao Congresso Nacional.

O artigo 4o. da lei 1079/50 define como crime de responsabilidade ato que atente contra a “probidade da administração”. 

O item 9 dessa lei diz que é ato contra a probidade da administração “proceder de modo incompatível com a dignidade, a honra e o decoro do cargo.”

Por muito menos, Itamar Franco quase perdeu o cargo, no Carnaval de 1994, quando foi fotografado ao lado uma mulher que estava sem calcinha, mas de vestido, flagrante registrado por uma foto tirada de baixo para cima.

Os militares queriam a sua cabeça, e chegaram a consultar Fernando Henrique Cardoso, na época ministro da Fazenda, para saber se ele permaneceria no governo caso Itamar Franco fosse afastado pelo Congresso Nacional.

Fernando Henrique rejeitou a ideia. “Saio no dia seguinte”, disse ele ao general que o procurou, conforme conta em seu Diários da Presidência.

Bolsonaro se mostrou indigno para o cargo que ocupa.

Mas é difícil que algum movimento político consistente para afastá-lo ganhe força no Congresso.

A indecência da reforma da Previdência é seu salvo conduto.

A menos que haja uma pressão popular muito forte, que envolva a massa dos seus eleitores conservadores, Bolsonaro pode rolar à vontade na lama.

Depois da reforma, a conversa é outra.

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