Bolsonaro boicota medidas de saúde pública e, não contente, ele ri. Por Luis Felipe Miguel

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Por Luis Felipe Miguel

Bolsonaro

Uma das potências do cargo de presidente é a capacidade de encarnar a unidade da nação. Marx já dizia, no Dezoito brumário, que enquanto o parlamento espelha os múltiplos aspectos do espírito nacional, isto é, suas divisões, o presidente representa sua inteireza. Isso lhe confere uma força simbólica nada desprezível, nos embates com outros poderes.

A sociologia política reconhece o fato há muito tempo. Observa como essa força é mobilizada e como outros atores políticos – primeiros-ministros, por exemplo – buscam se “presidencializar” a fim de disputá-la.

Trata-se, talvez, do elemento mais simples da função presidencial. Não exige competência administrativa nem grande tirocínio político. Torna-se particularmente acessível, a qualquer governante, nos momentos emotivos, em que a nação tem a ilusão de que de fato se irmana num destino comum. Momentos de júbilo (uma façanha tecnológica, uma conquista esportiva) e também de tristeza, quando uma tragédia se abate sobre o país.

Pois Bolsonaro é incapaz de acionar este registro.

É bem verdade que gostava de passear fantasiado com a faixa presidencial, símbolo também dessa unidade, mas, desacompanhado de qualquer outro gesto, isso nunca passou de uma mania ridícula. De resto, nunca foi capaz sequer das ações mais simples – por exemplo, manifestar consternação quando o país perde um gigante de sua cultura, como João Gilberto.

Diante da pandemia, já sabemos, Bolsonaro faz menos que nada: boicota ativamente todas as medidas de saúde pública e de amparo econômico mais pobres. Mas, não contente com isso, ele ri. Ele comemora. O país já empilhou quase 70 mil mortos, mas seu presidente está em festa.

(Se não tivessem prendido o Queiroz, o gozo seria perfeito. Isso incomodou. Mas o mortos da Covid-19, esses não geram um pingo de empatia.)

No sábado, como bem lembrou Cristina Serra na Folha de hoje, ele sobrevoou a região atingida pelo ciclone que trouxe destruição e morte ao Sul do país – e de lá foi diretamente posar sorridente para fotos na celebração da independência estadunidense.

Bolsonaro é “autêntico”, dizem seus defensores. Talvez: um autêntico psicopata. A falta dos requisitos mínimos de humanidade do ocupante do principal cargo de governo do país pesa como uma condenação para a base popular que ainda o sustenta e, sobretudo, para a elite econômica, política e militar que, bem ciente do que ele é, opta por mantê-lo no cargo.

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