Bolsonaro caminha para ‘enfraquecimento contínuo’, diz analista da FGV

Publicado na Rede Brasil Atual

Jair Bolsonaro

Com as novas revelações desta segunda-feira (5), que mostram provável vínculo direto do presidente Jair Bolsonaro no escândalo das “rachadinhas”, o cerco contra ele “vem se fechando”. De acordo com o cientista político e professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Cláudio Couto, Bolsonaro está cada vez mais “enfraquecido e acuado”. Nesse sentido, seu enfraquecimento deve provocar mudanças no posicionamento dos aliados do Centrão. Além disso, amplia a pressão sobre o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), para que coloque em votação ao menos um dos mais de cem pedidos de impeachment contra Bolsonaro.

Para Couto, Bolsonaro está hoje mais frágil do que esteve o ex-presidente Michel Temer quando foi gravado, em maio de 2017, pelo empresário Joesley Batista, revelando o acerto para manter o silêncio do ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (MDB-RJ).

“Ele caminha para um enfraquecimento contínuo, que pode culminar com seu impeachment, eventualmente. Acho menos provável. Mas certamente tende a produzir um Bolsonaro muito mais fraco nas eleições de 2022”, afirmou o cientista político em entrevista a Glauco Faria, para o Jornal Brasil Atual.

Esquema familiar

Couto disse que o áudio da ex-cunhada de Bolsonaro alegando que seu irmão foi demitido ao se recusar a entregar a maior parte do salário de assessor nem sequer surpreende. “Sabíamos que a ‘rachadinha’ era um esquema familiar. Não era só uma questão envolvendo os filhos, sem que Bolsonaro soubesse”. Ele cita o “rodízio” de assessores entre os gabinetes de Jair e seus filhos. Além disso, já havia fortes suspeitas do seu envolvimento no esquema, quando foi revelado que a filha de Fabrício Queiroz era funcionária fantasma no gabinete do então deputado.

PGR e CPI

Além dos mais de 100 pedidos de impeachment – incluindo um “superpedido” – Bolsonaro passou a ser formalmente investigado pela Procuradoria-Geral da República. Os procuradores vão analisar se ele prevaricou após ser avisado sobre possíveis irregularidades na compra de 20 milhões de doses da vacina Covaxin. Bolsonaro, no entanto, foi alertado pelo deputado Luis Miranda (DEM-DF), e pelo seu irmão, responsável pelo setor de importação do Ministério da Saúde.

À CPI da Covid, os irmão Miranda apontaram os indícios de prevaricação. Segundo o parlamentar, o próprio presidente atribuiu o esquema de superfaturamento da Covaxin ao deputado Ricardo Barros (PP-PR), líder do governo na Câmara. Na ocasião, Bolsonaro prometeu levar o caso ao conhecimento da Polícia Federal (PF). Contudo, não houve registro de pedido de investigação.

Retaliação

Diante dos avanços das investigações da CPI, o governo Bolsonaro utiliza as instituições de Estado, como a própria PF, para retaliar, destaca Couto. Por exemplo, o senador Renan Calheiros (MDB-AL), relator da CPI, foi indiciado em uma investigação que aberta em 2017 e que estava praticamente parada. “Não bastassem os diversos crimes de responsabilidade, que são objeto de mais de uma centena de pedidos de impeachment, existe também essa utilização do Estado para fins próprios. E pior ainda, a utilização do aparato repressivo para fins próprios, o que é algo típico de governo autoritários”.

Pressão das ruas e desembarque

O cientista político destacou que as manifestações de rua contra Bolsonaro começam a “engrossar”. Mais do que isso, os protestos do último sábado (3) – conhecidos como #3J – foram mais “diversos”, com a participação de grupos políticos de centro-direita. “Se esse movimento caminhar no sentido de algo parecido com o que foi a campanha das Diretas Já ou o impeachment do Collor, em que havia vários setores na rua, esse tipo de pressão sobre a classe política, e sobre o governo em particular, passa a ganhar força”, analisa.

Essa força das ruas pode precipitar o desembarque dos partidos do chamado Centrão, que dão sustentação a Bolsonaro. Um dos indícios desse quadro são as recentes declarações do ex-prefeito de São Paulo Gilberto Kassab, presidente do PSD. Ele tem dito que o impeachment de Bolsonaro é cada vez mais “inevitável“. E que o presidente nem sequer deve chegar ao segundo turno das eleições do ano que vem.

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