Bolsonaro e Mourão temem a manifestação pela democracia. Por Moisés Mendes

Bolsonaro não vê antifascistas nas ruas, mas terroristas. Hamilton Mourão vê baderneiros. Não são a mesma coisa, mas a tentativa de desqualificação dos manifestantes caminha na mesma direção.

Bolsonaro escreveu no Twitter: “Quem promove o caos, queima a bandeira nacional e usa da violência como uma forma de protestar é terrorista sim. Manifestante, contra ou a favor do governo, é outra coisa”.

Mourão escreveu em artigo no Estadão: “Aonde querem chegar? A incendiar as ruas do país, como em 2013? A ensanguentá-las, como aconteceu em outros países? Isso pode servir para muita coisa, jamais para defender a democracia. E o país já aprendeu quanto custa esse erro”.

O artigo de Mourão circulou ontem pela manhã no jornal. Bolsonaro pegou carona, para andar na mesma toada do general, e escreveu algo parecido no início da tarde. Estão ficando afinados.

Bolsonaro está à espera do confronto, da faísca ou de algo mais grave nas ruas, talvez o sangue de que fala Mourão. Tem muita gente torcendo por esse pretexto. Bolsonaro é o primeiro na torcida pela faísca.

E haverá mais antifascistas no próximo domingo nas ruas do que no domingo passado. Cresce a chance de repressão e de confrontos, como aconteceu domingo na Avenida Paulista.

Mourão e Bolsonaro sabem que eventuais baderneiros e terroristas nas ruas não são maioria. Como não eram em 2013 e depois, quando a Globo acionou baderneiros e terroristas da classe média para derrubar Dilma.

Mas Bolsonaro e Mourão jogam para a torcida da extrema direita com o que dispõem no momento, a disseminação do medo e a ameaça de que é preciso reprimir.

Se não houver a faísca, e se não houver sangue, o governo não tem o que fazer, e os militares alinhados com a ideia do caos também ficam sem tarefa a cumprir.

O cenário é ruim para Bolsonaro e Mourão. Era danada até agora a situação de Bolsonaro, cercado por todos os lados, com os filhos acuados, torcendo para que o procurador-geral engavete o inquérito sobre as relações promíscuas com a Polícia Federal.

Era ruim o clima geral para Bolsonaro, mas agora fica ruim também para Mourão. Um fato novo mudou um pouco a modulação do discurso do vice, que preferia a moderação.

Mourão começa a ver baderneiros porque está sob estresse e precisa reafirmar laços com a direita. A inquietação é acionada pela notícia de que o presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Luis Roberto Barroso, agendou para terça-feira, dia 9, a retomada do julgamento de uma das ações que pedem a cassação da chapa Bolsonaro-Mourão.

Se Bolsonaro cair, caem os dois. A coligação Unidos para Transformar o Brasil, da ex-candidata Marina Silva (Rede), e o ex-candidato Guilherme Boulos (PSOL) pedem que o TSE casse a chapa por envolvimento com o ataque hacker que alterou o nome do grupo ‘Mulheres Unidas Contra Bolsonaro’ para ‘Mulheres com Bolsonaro’, retirou publicações contrárias ao presidente e incluiu outras favoráveis à sua campanha.

Há outras seis ações contra a mesma chapa. Se não der nada agora, se for apenas um susto, pode dar mais adiante. E ainda tem o inquérito das fake news, que uma hora chegará aos filhos de Bolsonaro. E tem a CPMI das fake news. E tem a investigação da quadrilha das rachadinhas de Flávio Bolsonaro com o Queiroz.

Bolsonaro e Mourão afinaram o tom porque o imponderável de uma cassação é uma ameaça aos dois. Depois do domingo, dependendo do tamanho das manifestações nas capitais, saberemos que definição ambos terão para quem for às ruas. E depois ainda tem a terça-feira no TSE.

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