‘Bolsonaro é o Jim Jones brasileiro’, diz professor da Universidade da Virgínia

Imagem: reprodução

Em artigo publicado na revista direitista norte-americana Salon, David Nemer, professor da Universidade da Virginia, compara Jair Bolsonaro a Jim Jones, um fanático religioso, líder de uma seita nos anos 1970. Em 18 de novembro de 1978, Jones ordenou que 909 seguidores, dentre esses, 304 crianças, bebessem suco contendo cianeto e calmantes.

Muitos fizeram por vontade própria, mas outros foram ameaçados por seguranças armados.

Vários dos mortos no massacre de Jonestown, como foi egolatramente batizada a comunidade religiosa fundada pelo americano, tinham marcas de tiros e facadas. Por conta da epidemia do coronavirus, Nemer diz que Bolsonaro leva seus seguidores ao mesmo caminho, ao trocar o isolamento social pela promessa de cura milagrosa pela hidroxicloroquina.

Leia o texto traduzido por Charles Nisz:

Um país sul-americano, um líder de uma seita, uma droga milagrosa e a morte de milhares de seguidores fanáticos podem parecer a trágica história do massacre de Jonestown. Mas esses detalhes poderiam para contar mais um capítulo devastador no governo de Jair Bolsonaro, pois ele leva o Brasil ao caos em meio à pandemia de coronavírus. Os paralelos misteriosos entre o Rev. Jim Jones e Bolsonaro lembram o velho ditado de que a história se repete – primeiro como tragédia, depois como farsa.

Jones era o líder do Templo do Povo, uma comuna da selva, realocada dos Estados Unidos para o recém-batizado assentamento de “Jonestown” na Guiana. Em 18 de novembro de 1978, pouco antes de dar um tiro na cabeça, Jones convenceu seus fervorosos seguidores a cometer suicídio em massa bebendo suco com cianeto, deixando um total de 909 pessoas mortas. Embora essa história soe incomum, ela representa a materialização de como as pessoas podem ser manipuladas quando alguém tira proveito de seus medos e vulnerabilidades.

O suicídio em massa em Jonestown foi o desfecho dessa história trágica – o resultado final de um culto à personalidade de Jones, um narcisista paranóico. Jones era fascinante, persuasivo e sedento de poder. Ele prosperou na atenção, adoração e adulação. Ele era, em partes iguais, valentão e encantador. Essa descrição também serve para Bolsonaro, que mantém a devoção de sua base ao se envolver em retórica inflamada, políticas reacionárias e pitadas de racismo – um comportamento que lembra uma a mentalidade de uma seita.

O slogan da campanha de Bolsonaro, “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”, que foi constantemente evocado em seu mandato, foi a assinatura de seu pacto com os cristãos conservadores do Brasil, especialmente os neopentecostalistas. Embora Bolsonaro não tenha renunciado ao catolicismo (apesar de viver uma vida muito fora dos parâmetros dos “valores familiares” católicos), ele usa meios de comunicação de propriedade de bispos evangélicos para atrair e controlar seus eleitores.

Durante a pandemia do Covid-19, Bolsonaro rejeitou as recomendações de especialistas em saúde e disse às pessoas para confiar em sua fé e voltar à vida normal. Ele até pediu um dia nacional de jejum e oração neste domingo (5) para “libertar o Brasil do mal” do coronavírus. Politicamente falando, Bolsonaro e Jones têm pouco em comum. Como escreve Susie Meister, Jones pregou as virtudes do socialismo, pacifismo e igualitarismo racial. Ele adotou crianças de várias etnias para criar uma “família arco-íris”. Ele inspirou esperança entre seus seguidores para a harmonia global, benevolência e paz. No entanto, ele usou isolamento, autoritarismo e violência para controlá-los.

As semelhanças entre Jones e Bolsonaro residem no uso de meios para depreciar, zombar e intimidar seus oponentes. Bolsonaro constantemente cria novos inimigos como manter a coesão dos seguidores. Qualquer um que critique ou discorde de Bolsonaro é considerado inimigo, e todo esforço para desmontá-los é justificado. Isso significa perseguir cientistas, especialistas em saúde, o diretor geral da Organização Mundial da Saúde e ameaçar demitir até mesmo o ministro da Saúde. Em suma, Bolsonaro atacou sistematicamente os especialistas que pedem aos cidadãos que mantenham o distanciamento social durante essa pandemia.

Pouco antes de Jones decretar suicídio em massa, ele disse a seus seguidores que “parassem com essa histeria”, usando a mesma terminologia que Bolsonaro invoca para atacar medidas de prevenção ao coronavírus. Mas em vez de beber suco envenenado, elas foram instadas por Bolsonaro a tomar hidroxicloroquina, uma droga ainda não testada no tratamento ao Covid-19 – dando às pessoas uma falsa segurança para que elas possam voltar ao trabalho.

Como o número de mortos no Brasil já bateu os 800, Bolsonaro está dobrando sua aposta na manipulação e atiça os eleitores a saírem às ruas para protestar contra o isolamento. Isso leva sua própria “necropolítica” a um nível totalmente novo – no qual suas ações políticas também estão centralizadas na produção em larga escala da morte de sua própria base – preparando assim o cenário para uma tragédia maior que Jonestown.

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