Bolsonaro e o tempo do fascismo. As lições de Castells e Onetti. Por Tarso Genro

Jair Bolsonaro. Foto: CARL DE SOUZA/AFP

Publicado originalmente no site Sul21

POR TARSO GENRO, que foi Governador do Estado do Rio Grande do Sul, Prefeito de Porto Alegre, Ministro da Justiça, Ministro da Educação e Ministro das Relações Institucionais do Brasil

“Ruptura”, livro mais recente de Manuel Castells, trata das relações em rede na sociedade atual e das normas que essas relações promovem na crise da democracia liberal. Trata dos “tempos curtos” que as tecnologia infodigitais e aquelas relações em rede proporcionam aos cidadãos do nosso tempo. Estes “tempos curtos” de Castells são gerados por fluxos de informações sucessivas, pelos quais  os emissores remetem as informações que desejam, sem hierarquia – independentemente de parâmetros éticos – oferecem tudo o que pensam para quem as quer receber. Os receptores dessas informações  compostas por fluxos de ódio, convites, juras de solidariedade ou simples manifestações de desejos, recebem-nas como querem. E as buscam para confirmar o que já pensam e assim se integram nelas, sedimentando aquilo que já está na sua personalidade, alimentando, portanto, a sua cultura com as confirmações que selecionam no universo etéreo e sem hierarquia das redes sociais. Elas se ramificam em cada território e em cada movimento cotidiano das suas vidas previsíveis.

“Vida breve” de Juan Carlos Onetti (1950) é um livro dos “tempos longos”, tempo em que as pessoas falam entre si, olham-se, pervertem-se, amam-se e se rejeitam, como se o seu movimento corpóreo e psíquico no mundo pertencesse (e pertencia) a um tempo sem fim no qual as pessoas se fundiam, descobriam-se, transformavam-se uma nas outras e compunham espaços que não tinham limites, transcursos de tempo que formavam – não um fluxo efêmero -, mas uma caudalosa sucessão de ideias e de eventos que escorriam pausadamente na vida de cada um.

O personagem central de “Ruptura” é o negativo do ser social tornado homem-cidadão, que ali é só um integrante do fluxo de uma historia sem racionalidade. O personagem central de Onetti é Brausen, contratado para escrever o roteiro de um filme, que cria Dias Grey, símbolo de bondade e paciência interior, que descobre ao seu lado o seu alter ego sinistro: Arce, assassino e manipulador. Brausen criara Dias Grey cujo o contraponto é Arce. Os três integrados são o homem comum de uma história de fluxos longos, que consegue escolher entre alternativas, inclusive a de desaparecer na desesperança.

Brausen-Onetti diz a certa altura deste romance de personagens silenciosos e comuns, que sofrem a sua humanidade em ciclos longos, o seguinte : “qualquer paixão ou fé servem à felicidade na medida em que são capazes de nos distrair, na medida da consciência que podem nos oferecer”. Onetti desaparece nas três personalidades de Brausen, como se a vida – nos ensina Onetti – fosse um contínuo começar do zero, como um fracasso permanente.

Nos “fluxos longos” tem-se essa possibilidade, mas nos fluxos curtos da história os indivíduos se dissolvem nas informações emitidas sem hierarquia que vulgarizam sua consciência e controlam o seu espírito. Lembrei-me dessas duas obras grandiosas ao tomar conhecimento, pela enésima vez , do último disparate do atual presidente da República, um ser humano que celebra a tortura e cultua a morte, que despreza o seu país e o seu povo e os trata como animais manipuláveis por “fake news” e emissão de sentenças inapeláveis contra raças, orientação sexual e qualquer entendimento sobre o mundo que não venha da sua cabeça perturbada.

O presidente confia nos fluxos curtos da história, pois eles se erguem com preconceitos que desaparecem e são repostos imediatamente nas redes inspiradoras da divisão do país, promovida pela mídia oligopólica que educou perversamente uma grande parte da sociedade para a falsa ideia de que a complexidade do país na crise mundial poderia ser respondida pela linearidade simples de uma mente fascista dotada de ódio e de desamor ao seu próprio povo.

Esta mesma mídia foi a que ensinou a uma boa parte do povo passivo deste país que valia a pena eleger qualquer um contra Haddad, mesmo que fosse alguém que odiasse o seu semelhante e erguesse a sua liderança sobre os escombros da República. O que queriam fazer, fizeram, dentro do fluxo rápido da história atual do golpismo. Cabe a nós, homens e mulheres de esquerda, depositários da democracia, do republicanismo e da igualdade – sabendo que será um novo ciclo longo de confiança e de luta – deslocar para a sarjeta da história os fascistas e seus aliados.Restaurar a República que está sendo aniquilada pela insanidade e pela perversão.

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