Bolsonaro e seu Posto Ipiranga são derrotados na primeira batalha da guerra pela Previdência. Por Evilázio Gonzaga

Atualizado em 4 de abril de 2019 às 20:35
Paulo Guedes versus Zeca Dirceu. Foto: Reprodução

O embate violento entre Zeca Dirceu e Paulo Guedes deixou em segundo plano observações muito importantes, sobre a participação do superministro Paulo Guedes na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara Federal.

O deputado petista foi absolutamente correto nas suas comparações, embora há quem defenda que ele pudesse ter utilizado outras palavras. Não concordo com essa crítica, pois acho que o jovem Dirceu colou ao ministro uma imagem popular, que pode ser compreendida facilmente pelo cidadão comum.

Porém, a violenta reação de Guedes acabou sendo a manchete e o lead do evento, deixando de lado fatos relevantes, que ocorreram na sessão e que deverão orientar todo o debate sobre a reforma que pode afetar a vida de gerações de brasileiros.

Uma primeira observação é que Guedes estava muito bem assessorado, treinado e, provavelmente medicado. Com aparência calma e segura na maior parte do tempo, características que certamente ele adquiriu com um intenso treinamento de mídia training e, eventualmente uma dose de medicamentos tranquilizantes, o posto Ipiranga tentou convencer que ele não é quem ele é: um banqueiro, rentista, especulador e lobista do sistema financeiro.

Guedes chegou a dizer que não é um chicago-boy, apesar de ter estudado em na Universidade de Chicago, onde foi aluno dos mentores a escola ultra neoliberal, que prosperou naquela instituição. O ministro não somente estudou em Chicago, como também esteve no Chile, como operador financeiro, onde ganhou bastante dinheiro.

Outra falácia foi afirmar que, como ministro, ele está “perdendo dinheiro”.

O sacrifício do ministro só é capaz de enganar os muito desinformados. Quem conhece o mercado sabe que rentista não trabalha. Eles ganham dinheiro com o dinheiro, que permanece no sistema financeiro, gerando juros. Desta forma, o posto Ipiranga pode estar no ministério, em uma estação de esqui no Chile ou em uma piscina, que o dinheiro dele estará fazendo mais dinheiro.

Guedes foi com toda a certeza preparado pelos seus assessores, para transmitir a imagem de um estadista, que se sacrifica porque que está preocupado com o país e os mais pobres. É uma imagem que não encontra comprovação em nenhum momento da biografia do posto Ipiranga.

Nesta linha, Guedes também tentou convencer à plateia; que assistia sua performance presencialmente e ao vivo, via TV; da sua intenção de avançar sobre as grandes fortunas, os lucros e os mega-sonegadores. Porém, sempre com a ressalva: depois da “nova previdência”.

Ou seja, o ministro pede um cheque em branco mais uma vez. Entretanto, é difícil acreditar em pessoa que passou a maior parte de sua vida como banqueiro e operador do sistema financeiro vá se voltar contra seus pares – e contra si mesmo.

Nessa toada ele insistiu no discurso pronto de associar a previdência que defende, com a salvação do Brasil, a recuperação da economia e a geração de empregos.

Para dar autoridade aos seus argumentos, a assessoria do ministro preparou diversos números, que foram manejados sempre fora de contexto. Uma prova da má fé de Guedes no manejo de índices foi a apresentação de dados sobre o índice de suicídios no Chile. Ele mencionou números absolutos e os comparou com outros países. Nesse momento, ele fingiu desconhecer que a discussão não se refere aos números absolutos de suicídios da população com mais de 60 anos, que podem ter diversas motivações ao redor do mundo. A denuncia sobre os suicídios de velhos no Chile leva em conta os idosos que se matam devido à dificuldade de sobrevivência com os parcos recursos do modelo de previdência capitalizada daquele país. Se apenas este universo for comparado com outros países, o Chile, o México e a Colômbia estarão entre os primeiros do ranking.

Este episódio revela desonestidade intelectual e compromete toda a linha de argumentação do ministro.

OPOSIÇÃO FOI BEM MAS PODERIA TER SE PREPARADO MELHOR

Embora diversos parlamentares do PSOL, PT, PSB e PDT tenham feito ótimas intervenções políticas, poucos apareceram com números que pudessem contestar o ministro. As exceções foram Paulo Teixeira, Clarissa Garotinho e Gleisi Hoffmann.

Os dois primeiros pediram ao ministro respostas mais objetivas sobre a questão das regras de transição, que serão dolorosas. Guedes preferiu se ater a um ponto secundário apontado pela deputada Clarissa, que percebeu um erro de português na redação do documento, mas fugiu do ponto substantivo que é a crueldade da transição quase supersônica que se pretende fazer – uma maldade.

Gleisi lançou um questionamento fundamental, que abala um dos pontos centrais dos argumentos que defendem a proposta do posto Ipiranga: nos países onde a capitalização proposta por Paulo Guedes foi implantada, houve grave prejuízo para a economia. Os dados trazidos ao debate pela ex-senadora são alarmantes: no Chile a capitalização, embora penalize os aposentados, aumentou o custo da previdência para os cofres públicos em mais de 130%; no Brasil, a previsão é de aumentar em 200%. A deputada que preside o PT também alertou que no México o impacto da capitalização fez o custo da previdência ir de 1%, para 4% do PIB, enquanto na Colômbia, a variação foi de 1,5%, também, para 4% do PIB.

Portanto, o projeto de capitalização da previdência, pelo que a experiencia internacional comprova, traz graves prejuízos para os países aonde foi implantada e não a salvação pregada por Guedes.

Pelos dados apresentados por Gleisi Hoffmann, somente os bancos tem benefícios com o sistema.

No plano político é importante destacar as falas dos deputados Alessandro Molon (PSB) e Paulo Pimenta (PT). O primeiro observou que o Presidente da República não se coloca publicamente em defesa da proposta de Guedes, porque tem vergonha dela e teme perder seus apoiadores.

Paulo Pimenta constatou que o posto Ipiranga foi deixado sozinho para defender a sua previdência, pois além do presidente, nem mesmo a base do governo esteve presente para apoiar o ministro. Pimenta foi taxativo: “você está sozinho”.

O isolamento de Guedes é claramente percebido. Exceto pouquíssimos deputados despreparados, em geral militares ou policiais, nenhum parlamentar mais experiente do campo conservador se animou a defender o ministro. Do lado da bancada dita governista o que se viu foram alguns elogios puxa-sacos e o argumento esdruxulo do relator da reforma da previdência, Delegado da PF Marcelo Freitas, do PSL-MG.

O delegado tentou provar, de maneira patética, que o posto Ipiranga tem apoio. Sua fala foi um anticlímax, inclusive pela sua figura. Freitas estava vestido como um capanga de baixo nível da máfia – os capos usam figurinos bem mais elegantes, do que aquele grosseiro conjunto de terno e camisa preta. O delegado-deputado tentou justificar que a previdência de Guedes é justa porque fará com que funcionários públicos, como ele, não possam mais se aposentar com pouco mais de 40 anos.

Na sua absoluta falta de noção, Freitas não consegue entender que funcionários públicos da elite concurseira, como ele, os promotores, juízes e outros, deveriam de fato ser alvo, não só de uma reforma seria da previdência, como também de um enquadramento republicano. O delegado está longe de ser um exemplo do trabalhador brasileiro, que será penalizado aos milhões.

A participação de Freitas na sessão serviu apenas para desnudar a incompetência, o despreparo e a fragilidade intelectual da bancada que defende o governo com mais entusiasmo.

A primeira batalha foi vencida pela oposição. Embora a vitória pudesse ter sido esmagadora, o sistema financeiro, ao qual Guedes é vinculado, sentiu o golpe. O dólar oscila com viés de aumento e a bolsa prossegue caindo. Esses índices não tem relação com a economia real que atinge os brasileiros com o assustador desemprego e a rápida extinção do mercado interno, mas indicam que os sensores do sistema financeiro – o maior interessado na bolada de um trilhão de reais – estão percebendo que a guerra não será fácil.

O ESCORPIÃO E O SAPO

O posto Ipiranga, agora também conhecido como Tchutchuca dos banqueiros, se comportou na CCJ como o escorpião da fábula, que pede a um sapo que o leve através de um rio. O sapo tem medo de ser picado durante a viagem, mas o escorpião argumenta que se picar, o sapo iria afundar e o escorpião se afogaria. O sapo concorda e começa a carregar o escorpião. Mas no meio do caminho, o escorpião ferroa o sapo, condenando ambos. Quando perguntado por que o escorpião havia picado, ele responde: que esta é a sua natureza e ele nada poderia fazer para mudar.

Guedes perseverou em convencer que não é rentista, operador, especulador, banqueiro e lobista. Seu discurso bem construído por seus assessores insistiu no argumento de que ele assumiu o ministério, para defender os pobres e oprimidos. Quem o conhece sabe que esta não é a sua natureza. O entrevero final com Zeca Dirceu confirma que o escorpião não consegue fugir à sua natureza e pica antes da hora.

Para a oposição fica a lição de que os deputados do campo democrático devem se preparar melhor para o debate. A impressão que transpareceu a quem assistiu a sessão pela TV é que a única pessoa, que havia de fato se preparado para o debate, apesar de boas falas de deputados do PT, PSOL, PSB e PDT, foi a Clarissa Garotinho. É também evidente que, quando confrontado com números, o Tchutchuca dos bancos foge para outro tema.

É BOM LEMBRAR DO CARTÃO DE CRÉDITO E DO CHEQUE ESPECIAL

Uma linha de argumentação que fez falta foi explicar que a previdência é uma política pública, de proteção social. A proposta de Guedes – que ele não negou na CCJ – é transferir um trilhão de reais para o sistema privado. O ministro pretende estabelecer um gigantesco sistema de agiotagem com o dinheiro de uma multidão de brasileiros.

Independente do nome fantasia – bancos ou fundos – o dinheiro de milhões de brasileiros, na capitalização, vai para o sistema financeiro.

Portanto, será bom lembrar às pessoas como é que as instituições financeiras tratam seus correntistas: basta lembrar dos juros extorsivos do cartão de crédito, do cheque especial ou dos empréstimos.

Os bancos não negociam com solidariedade. Eles miram o lucro e não entra na sua contabilidade qualquer espécie de proteção social. Portanto é ingenuidade esperar um comportamento diferente das instituições planejadas por Guedes. O que ele quer é bom para os bancos e ruim para o país e os brasileiros.