Bolsonaro, Fidel e Covid-19: como Cuba superou o Brasil na corrida das vacinas

Publicado originalmente em Repórter Brasil

Cuba foi o primeiro país a aplicar doses “made in” América Latina, superando o Brasil e Argentina na produção local de matéria-prima. Subcontinente está envolvido na fabricação de 147 milhões de doses, ou apenas 4,3% das vacinas produzidas no mundo

“Bloquear um país e impedir que cheguem equipamentos médicos e medicamentos é um crime”, afirmou Fidel Castro durante visita à Fiocruz, em 20 de março de 1990 (Foto: Fiocruz)

O presidente cubano Fidel Castro visitou, em março de 1990, a Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), no Rio de Janeiro, para conhecer os laboratórios brasileiros de vacinas. Foi recebido com aplausos pelos servidores e posou para fotografias, antes de discursar sobre os efeitos do embargo americano ao sistema de saúde cubano. “Se surge um medicamento novo, nosso país não pode adquirir”, protestou.

Na visita às instalações, ele queria saber se os laboratórios da Fiocruz eram mais avançados que os de Cuba, conta o anfitrião do encontro, o cientista Akira Homma, então presidente da fundação. Fidel elogiou a fábrica brasileira e reforçou o interesse em transferir a tecnologia de vacinas cubanas ao Brasil.

A visita de Fidel Castro (morto em 2016) reflete a importância da saúde pública em Cuba e sua tradição na área de vacinas, e ajuda a entender por que a ilha de 11 milhões de habitantes – e tamanho pouco maior que Pernambuco – venceu a etapa latino-americana da corrida global por vacinas da Covid-19.

Cuba não trocou e-mails com a Pfizer, não encomendou imunizantes russos ou chineses nem do mecanismo Covax (aliança liderada pela OMS para distribuir vacinas). O país dependeu exclusivamente da sua indústria de biotecnologia e, em maio, iniciou uma campanha de vacinação com duas vacinas experimentais, a Soberana 02 e a Abdala: tornou-se o primeiro país da região a colocar um produto caseiro no mercado.

Mas não é só isso: Cuba é hoje o único país latino-americano que fabrica as vacinas da Covid de forma independente, do início ao fim, em escala – ainda que seus imunizantes estejam na última etapa dos testes em humanos.

Isso significa que as fábricas da estatal BioCubaFarma não apenas formulam e envasam as vacinas da Covid – como Fiocruz e Butantan atualmente – mas produzem também o princípio ativo, ou IFA (Insumo Farmacêutico Ativo), solução contendo o antígeno que, ao ser inoculado, ativa o sistema imunológico.

“A história da biotecnologia em Cuba não é um evento, é uma política pública, tem começo, meio e fim”, diz o médico sanitarista Gonzalo Vecina Neto, ex-presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Ele diz que o embargo econômico dos Estados Unidos, estabelecido há 60 anos, obrigou Cuba a investir nessa indústria.

Ao se tornar o primeiro país a aplicar vacinas “made in” América Latina, Cuba deixou para trás o homem mais rico do subcontinente, o magnata mexicano Carlos Slim, que financia a parceria entre México e Argentina para fabricar vacinas da AstraZeneca para toda região (com exceção do Brasil). Pelo acordo, a Argentina fica responsável pela fabricação do IFA, enquanto a finalização ocorre no México. Porém, as doses só chegaram aos braços latino-americanos em junho, após três meses de atraso na linha de envase mexicana (e um mês depois de Cuba).

O Brasil deve chegar em terceiro na corrida regional, quando a Fiocruz começar a entregar, em outubro, os primeiros lotes de AstraZeneca com IFA nacional. O laboratório público ligado ao Ministério da Saúde já entregou 70 milhões de doses até agora, mas todas com matéria-prima chinesa. Já o Butantan vai entregar só em 2022 as doses da Coronavac com insumo feito em São Paulo.

A América Latina precisa urgentemente ampliar a fabricação de suas doses. A região vê a transmissão descontrolada do coronavírus há seis meses, enquanto as campanhas de vacinação caminham lentamente. Está claro que, apesar dos esforços da Organização Mundial da Saúde (OMS), a maior parte das vacinas da Covid continua nas mãos dos países mais ricos. A circulação de variantes do coronavírus e a possibilidade de revacinação trazem mais incertezas sobre quando teremos doses em quantidade suficiente.

“O que vemos é um apartheid de vacinas e um sentimento nacionalista exacerbado. Enquanto vários países ricos compraram mais doses do que precisavam, os prazos de entrega para nós são mais demorados”, afirma Jorge Bermudez, chefe do Departamento de Política de Medicamentos e Assistência Farmacêutica da Fiocruz. “Mesmo que se queira comprar vacinas da Pfizer, Janssen e Astrazeneca, todas já se comprometeram além das suas capacidades”.

Com isso, a região fica para trás. Enquanto, no Reino Unido, 50% da população está com a imunização completa – assim como 47% nos EUA, 36% no Canadá e 35% na União Europeia –, o índice médio na América Latina e no Caribe está em 12,5%, segundo o site Our World in Data, da Universidade de Oxford. Os líderes regionais são Chile e Uruguai, com taxas acima de 50%. Nos demais países, os índices estão perto ou abaixo dos 15%. O Haiti não aplicou uma dose sequer.

As taxas de vacinação são piores na Ásia, onde vivem 4,6 bilhões de pessoas (59% da população mundial), mas somente 8,2% estão completamente imunizadas. Na Oceania, 4,3% da população tem a proteção completa, enquanto na África – único continente que ainda não produz vacinas da Covid – o índice é de 1,2%.

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