Bolsonaro liga para o Xi Jinping, mas não liga para os brasileiros. Por Fernando Brito

Os presidentes Jair Bolsonaro e Xi Jinping. Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

Publicado originalmente no Tijolaço:

Por Fernando Brito

Noticiam os jornais que Jair Bolsonaro teria pedido para que o Itamaraty conseguisse “uma chamada telefônica com o líder chinês Xi Jinping para fazer um apelo pela liberação de insumos para a fabricação de vacinas contra a Covid-19”.

É a segunda vez que Bolsonaro pede para o presidente da China atendê-lo: a primeira foi 10 meses atrás, quando se criou uma crise quando seu filho Eduardo – presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara – acusou a China de ser a responsável pela pandemia do novo Coronavírus.

Daquela vez, Bolsonaro levou seis dias para conseguir falar, demora que foi a forma dos chineses demonstrarem sua contrariedade e exigirem desculpas.

Que podem ter sido pedidas em privado mas não arrefeceram a disposição do Presidente em criticar a China e suas vacinas, especificamente, como todos recordam.

Os chineses, que de bobos nata têm, estão vendo que o que move Bolsonaro é a repercussão nacional e mundial do desastre humanitário que vive o Brasil, com gente morrendo sufocada por falta de oxigênio, e não a preocupação com a vida dos brasileiros, dos quais ele tem sido o alegre coveiro.

É mais certo que os chineses liberem a exportação dos insumos para a vacina do que venham a dar tratamento de interlocutor preferencial ao presidente brasileiro em circunstância de, outra vez, de fazer ofensas gritadas e desculpas sussurradas.

Mas os insumos virão na justa quantidade contratada, já insuficiente para manter um programa de vacinação consistente.

O UOL hoje volta ao tema – já abordado aqui – de que “Com 10,8 milhões de doses, Brasil não tem vacina suficiente para a 1ª fase“, já considerando a liberação pela Anvisa das 4,8 milhões de doses envasadas no Butantan, que tem sua linha de produção parada desde domingo.

É pouco mais de um terço do necessário para o grupo um de prioridades, que não será vacinado antes do final de março e não tem por objetivo central o bloqueio vacinal da doença, mas a preservação do corpo hospitalar e de pequenos grupos extremamente vulneráveis.

Está evidente que precisamos de uma política agressiva para obter vacinas em quantidade maior e, se “perdemos o bonde” quando as disponibilidades existiam, agora temos de correr muito para alcançar – e pagando caro – o que não pegamos na hora certa.

PS. E, além da China, ainda estamos genuflexos à Índia, por meros dois milhões de doses, pagando o preço aí e em soluções globais por termos, a serviço de Donald Trump, ajudado a barrar a proposta indiana de quebra das patentes vacinais.