Bolsonaro mente sobre seu papel na “caça” a Lamarca e seu bisavô “soldado de Hitler”. Por Miguel Enriquez

Bolsonaro nos tempos do Exército

POR MIGUEL ENRIQUEZ

Entre as diferentes patranhas proferidas por Jair Bolsonaro, candidato a presidente pelo PSL, nesta campanha eleitoral, tornou-se recorrente a de que, ainda adolescente, teve uma participação ativa na caçada empreendidas pelo Exército ao capitão Carlos Lamarca, que montara um campo de treinamento de guerrilhas no Vale da Ribeira, em São Paulo, no primeiro  semestre de 1970.

Caçada infrutífera, diga-se, pois, à frente de um reduzido grupo de nove companheiros, Lamarca enfrentou e ludibriou um contingente de 2 500 soldados e oficiais do Exército, Marinha, Aeronáutica e da Força Pública (atual Polícia Militar) de São Paulo.

Fortemente armado, com helicópteros e aviões, esse contingente foi mobilizado para sua captura na chamada Operação Registro, batizada com o nome do maior município da região, comandada pelo famigerado coronel Erasmo Dias, mais tarde Secretário de Segurança paulista.

O episódio, que marca um dos momentos mais  vexatórios vividos pelos militares, que durante 20 anos dominaram com mão de ferro o país, foi convenientemente silenciado pela ditadura e praticamente esquecido nos anos seguintes.

Coube a Bolsonaro resgatá-lo mais recentemente, seja em pronunciamento na Câmara dos Deputados, seja em entrevistas como a que concedeu no início da semana ao jornalista e correligionário gaúcho Rogério Mendelski, da Rádio Guaíba, de Porto Alegre, e que redundou na demissão de seu colega Juremir Machado, inconformado com o veto de Bolsonaro à participação dos demais integrante do programa.

Bolsonaro, que residia em Eldorado Paulista, no Vale da Ribeira, teria auxiliado na perseguição ao grupo de Lamarca, a despeito de sua pouca idade – apenas 15 anos. Eldorado fora palco de um enfrentamento entre os guerrilheiros e os soldados da Força Pública, em que os primeiros levaram a melhor.

Em outras ocasiões em que se referiu ao assunto, o candidato do PSL afirmou que chegou a guiar os militares do Exército, que se concentraram em Eldorado depois do tiroteio, pelas matas da região, que conheceria como a palma da mão.

Embora não haja nenhum registro oficial dessa participação, Bolsonaro insinua que seria ele o misterioso “moleque sabido”, celebrado nos anais militares por ter efetivamente participado de um outro episódio envolvendo Lamarca.

Em reportagem de agosto deste ano, que leva o título de “Bolsonaro é o ‘moleque sabido’ que ajudou na captura de Lamarca?”, o repórter Plinio Fraga, da revista Época, reduz a pó a mistificação intentada por Bolsonaro em entrevista ao Roda Viva, da TV Cultura, entre outras entrevistas.

No subtítulo da matéria, Fraga reponde à indagação: “Candidato repete que participou de busca a líder esquerdista, mas aproveita de mito da caserna para avolumar – enganosamente – a própria biografia.”

Segundo a reportagem, o “moleque sabido” realmente existiu, mas em Itapecerica da Serra, a 210 quilômetros de Eldorado, onde vivia a família Bolsonaro. E o fato em que esteve envolvido  ocorreu em janeiro de 1969, cerca de 14 meses antes dos eventos no Vale da Ribeira. 

Graças ao garoto, foram presos integrantes da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), o grupo em que militava Lamarca, que pintavam um caminhão com a cor verde do Exército, num sítio no interior de Itapecerica.

O caminhão seria utilizado por Lamarca para o transporte de armamento ao desertar do quartel do 4º Regimento de Infantaria, em Quitaúna. 

“Assim, o ‘moleque sabido’ teria dado a primeira trilha que levaria à captura de Lamarca, que só aconteceria em setembro de 1971”, diz a reportagem, numa referência à morte do chefe guerrilheiro no sertão da Bahia.

Um dos sintomas da mitomania, de que padece Bolsonaro, é que as histórias contadas não são totalmente improváveis e muitas vezes têm algum elemento de verdade.

Da mesma forma, as mentiras tendem a apresentar o mentiroso favoravelmente, apresentando-o, por exemplo, como uma pessoa fantasticamente corajosa.

Bolsonaro, de fato, vivia em Eldorado e entrou em contato com os militares que acamparam na cidade, interagindo com eles. Vendo o deslumbramento do menino com as armas e viaturas, estes o incentivaram a seguir a carreira militar, o que acabou acontecendo, ao ingressar na Academia Militar de Agulhas Negras (Aman), em 1973.

Entrevistado pelo repórter Valdir Sanches para a edição de março de 2015 da revista Crescer, publicação da editora Globo, o PM aposentado Cidernei Alves, amigo de Bolsonaro, contou que ele era conhecido pelo apelido de Palmito (branco e comprido).

Alves resumiu o que foi a convivência deles com a tropa do Exército.

“Ficávamos conversando com os militares”, disse. “Eles nos mostravam as armas. Ficávamos fascinados.” Nenhuma menção a alguma incursão pelas matas com os soldados.

No entanto, o hábito de falsificar a realidade do jovem Palmito segue intacto como componente da personalidade do chamado “mito” da extrema direita brasileira.

Prova disso é a afirmação de que seu bisavô serviu como soldado da Wehrmacht, o exército alemão, sob Hitler, durante a Segunda Guerra Mundial.   

Numa sessão especial da Câmara dos Deputados, realizada em novembro de 2014, em homenagem aos 70 anos do desembarque da Força Expedicionária Brasileira (FEB) na Itália, o então deputado pelo PP, um dos sete em que militou nos últimos 30 anos, Bolsonaro se superou.

“A história da Força Expedicionária Brasileira é inconteste. Garantiram, fora do Brasil, a nossa democracia aqui dentro. Agradeço neste momento, também, o exército americano, tão criticado por setores de esquerda do mundo todo, em especial do nosso país”, afirmou.

O delírio vem a seguir. “Agradeço, então, ao povo americano por não estar falando alemão. Apesar de meu bisavô ser alemão e ter sido soldado de Hitler. Ele não tinha opção: era ser soldado ou paredão. Graças a Deus ele perdeu a guerra. Mas ele me contou muitas histórias que eu não vou falar aqui agora.”

Na gravação de uma entrevista para o programa CCQ, da TV Bandeirantes,  Bolsonaro, depois de admitir que poderia ter servido no exército nazista,  reiterou a lorota. “Meu bisavô foi soldado de Hitler e perdeu um braço na guerra”, afirmou.

De acordo com a Wikipedia, o  bisavô de Bolsonaro, que se chamava Carl Hintze, nasceu na Alemanha, por volta de 1876, e chegou ao Brasil em 1883, anda criança, cinco décadas antes da Segunda Guerra Mundial. Em 1939, quando o conflito começou, Carl tinha nada menos que 63 anos, uma idade um tanto provecta e pouco plausível para a convocação de um soldado, convenhamos.

Mesmo que Bolsonaro tenha se confundido e quisesse ter se referido à Primeira Guerra, a lorota não se sustenta. Primeiro, porque em 1914 Carl já tinha 38 anos, o que também é considerado uma idade avançada para um combatente.

Segundo, porque o velho Adolf lutou nela como um simples cabo e, portanto, a Wermacht não poderia ser considerada o “exército de Hitler.”

Além disso, não há nenhuma evidência de que o bisa, falecido em 1969, em Campinas, tenha deixado o Brasil nesse período.

A mitomania parece ser uma forma de Bolsonaro minimizar suas frustrações pessoais. Chegou ao oficialato no fim da década de 1970, quando já não mais havia “terroristas” para perseguir, prender e torturar, e a sociedade brasileira reagia com vigor à ditadura, obrigada a por em marcha o processo de “distensão lenta, gradual e segura” patrocinado pelo general Ernesto Geisel.

Não por acaso, a frustração foi compensada pela idolatria em relação ao coronel Brilhante Ustra, o torturador-mor do regime.

Considerado um mau militar pelos militares de alta patente como Geisel, que usavam a expressão “bunda suja” para designar tipos como ele na caserna, resolveu transformar-se num espécie de Unabomber de privadas.

Em 1987, então com 32 anos, o capitão de paraquedistas bolou um plano, denominado “Beco sem saída” , que previa explosões de bombas de baixa potência em banheiros de quartéis, para forçar a concessão de aumento do soldo pelo governo Sarney.

Bolsonaro, inclusive, chegou a detalhar por escrito a confecção das bombas, material que foi publicado pela Veja, para a qual já havia escrito, um ano antes, em setembro de 1986, um artigo sobre a questão salarial dos militares.

Foi julgado duas vezes por diferentes Conselhos de Justificação do Exército sob a acusação de “ter tido conduta irregular e praticado atos que afetam a honra pessoal, o pundonor militar e o decoro da classe, de acordo com áudios obtidos pelo jornal O Estado de S. Paulo.

“Na primeira instância, em janeiro de 1988, foi considerado culpado pela unanimidade dos três julgadores, todos oficiais militares”, diz o jornal, em reportagem de 01/abril/2018. Dura, a sentença registra desvio grave de personalidade e deformação profissional, falta de coragem moral para sair do Exército e censura Bolsonaro por ter mentido ao longo do processo, ao negar contatos frequentes com a revista Veja.

A decisão foi reformada em sessão secreta do Superior Tribunal Militar. Inteiramente gravada, a sessão produziu 37 áudios aos quais o jornal teve acesso.

“Jogam luz numa história que vai sendo esquecida, tem sido mal contada, e que esclarece uma parte importante na trajetória do polêmico personagem”, enfatiza a matéria assinada pelo repórter Luiz Maklouf Carvalho, que recebeu o apropriado título de “O julgamento que tirou Bolsonaro do anonimato.”

Em dezembro de 1988, Bolsonaro foi para a reserva remunerada com a patente de capitão. Naquele ano, graças à popularidade angariada com sua atuação “sindical” o Palmito de Eldorado fora eleito vereador pelo Rio de Janeiro, na bancada do Partido Democrata Cristão. 

Visto inicialmente com simpatia até pela esquerda por conta de sua combatividade na defesa dos interesses salariais da tropa, Bolsonaro logo tratou de colocar as coisas no devido lugar, assumindo sua verdadeira faceta, a de um feroz anticomunista, ultraconservador nos costumes e preconceituoso. E, é lógico, um mitômano de mão cheia.

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Nota de rodapé:  Ao revelar a operação “Beco sem saída”, para explodir bombas em unidades militares do Rio de Janeiro, a Veja rompeu o acordo de “off the record” firmado com Bolsonaro, fato que contribuiu para precipitar seu afastamento do Exército.

Por uma dessas ironias da história, a semanal da Abril era dirigida à época pelo jornalista José Roberto Guzzo, ou J. R. Guzzo, atualmente um dos mais entusiastas defensores na imprensa brasileira da candidatura do capitão reformado à presidência da República.

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