Bolsonaro no Chile é como o cangambá, animal fedido de que todos querem distância. Por Joaquim de Carvalho

Bolsonaro e o cangambá

Se Jair Bolsonaro fosse um animal, ele poderia muito bem ser o cangambá — um parente distante dos furões, da lontra e da irara –, de que todos querem distância, por exalar mau cheiro.

Convive com ele apenas quem tem interesse no cargo que ocupa, salvo os milicianos ou simpatizantes, estes unidos por laços de indiscutível afinidade.

No Chile para a reunião de fundação da ProSul, a instituição de direita que substituirá a Unasul,  Bolsonaro tem sido rejeitado até por quem, protocolarmente, deveria recebê-lo.

É o caso do presidente do Senado, Jaime Quintana Leal.

O senador recusou convite para um almoço que será oferecido ao presidente do Brasil amanhã. “Os admiradores de Pinochet não são bem vindos no Chile”, disse.

Quintana Leal não é nenhum político extremista. Ele pertence ao Partido pela Democracia, que se define como centro-esquerda.

Nesta semana, o senador se encontrou com o direitista Ivan Duque, presidente da Colômbia, que também está em Santiago para a instalação da ProSul.

“Dividimos a mesa, em um clima muito civilizado. Mas nunca escutei de Duque expressões que atacam os pilares centrais da democracia, os valores essenciais de direitos humanos”, afirmou.

Sobre Bolsonaro, a lista de restrições é longa.

“Não tem a ver com o cargo da Presidência, mas com a pessoa de Jair Bolsonaro e suas declarações homofóbicas, misóginas e em relação à tortura. Participar de uma atividade de homenagem a ele (Bolsonaro) atingiria muitas pessoas de nosso país que se sentem prejudicadas por suas declarações”, disse.

Quintana destacou que Bolsonaro representa ameaça à humanidade. “À medida que sigamos endossando lideranças que começam com discursos populistas, mas terminam consolidando regimes totalitários, a ameaça não é só para um país. Termina sendo uma ameaça para a humanidade. Isso aconteceu na Europa dos anos 1930.”

A deputada Carmen Hertz, do Partido Comunista, foi na mesma linha, porém mais incisiva, e deu nome à ameaça dos anos 30. “Juntar-se hoje com Bolsonaro é como juntar-se a Hitler de 1936”.

Uau!

O presidente do Chile, Sebastian Piñera, que é de direita, se viu em uma saia justa. E ele tentou se justificar. Disse que a recepção a Bolsonaro estava relacionada à importância do Brasil.

“Sei que ocorreram algumas críticas no nosso país. Mas cada país tem direito a escolher seus governos”, afirmou, e fez questão de frisar que o governo dele, Piñera, entretanto, mantém o “forte compromisso na defesa de direitos humanos”.

Delimitou as diferenças.

Depois de Bolsonaro envergonhar o Brasil, com sua postura de lambe-botas de Donald Trump nos Estados Unidos, ele agora espalha seu rastro de ódio pelo Chile.

Uma pessoa assim é nociva para os negócios do Brasil. Viagens internacionais são oportunidades de abertura ou ampliação de novos negócios.

Uma das formas de atrair o interesse estrangeiro por oportunidades no Brasil é a exposição de idéias e propostas através do contato com a imprensa.

Que jornalistas deixaria de fazer as perguntas sobre a controvertida biografia de Bolsonaro caso tivesse a oportunidade de entrevistá-lo?

A CNN do Chile, em uma reportagem recente que fez sobre Bolsonaro, o associou ao assassinato de Marielle Franco.

Enfim, Bolsonaro é uma notícia negativa em si. Sua simples presença não atrai simpatia e, em consequência, afugenta negócios.

Se ele fosse CEO de uma empresa, já teria sido demitido, pela incapacidade de agregar imagem positiva a qualquer negócio que seja lícito.

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