Bolsonaro, Paulo Guedes e Os Trapalhões: o desastre anunciado da República das Caneladas. Por Kiko Nogueira

“Prensa é modo de dizer, talkei?”

Em pouco mais de uma semana, o governo eleito produziu caneladas — termo caro a Jair Bolsonaro — como nunca antes se viu na história de uma transição democrática.

Não que alguém esperasse algo diferente desse Cérbero de várias cabeças batendo umas nas outras, mas as trapalhadas estão espantando até os amigos da GloboNews (veja abaixo).

No caso do aumento do salário dos ministros do STF e o efeito cascata, Bolsonaro teve uma derrota óbvia, embora não admitida. Não fez qualquer articulação com esse Senado que fica até fevereiro.

O futuro ministro da Economia, Paulo Guedes, o Posto Ipiranga, bateu numa repórter argentina que ousou lhe pergunta, candidamente, sobre o Mercosul.

Outra coisa é brigar com Eunínio Oliveira. Sugeriu que se desse “uma prensa” no Congresso para aprovar a reforma da Previdência. Bolsonaro colocou panos quentes, mas foi tarde demais.

Eunício declarou, sobre o resultado de votações da Casa, que “não estou preocupado se Bolsonaro vai gostar ou não”.

“Comuniquei ao Paulo Guedes que eu estava prorrogando o orçamento duas vezes”, relatou. “Ele disse: ‘Ou você vota a reforma da Previdência ou o PT volta’”.

Mais: “Até o último dia em que eu for presidente, ninguém vai interferir nesse Poder, a não ser por entendimento, por conversa e harmonia.”

Ministérios que iam ser fundidos voltam a existir, membro do time da transição é demitido pelo Twitter por um dos Bolso juniores, a bravata da mudança da embaixada brasileira em Israel durou algumas horas.

Bolsonaro voltou atrás após o Egito cancelar uma visita, afirmando que não é um “ponto de honra”. Sergio Moro é obrigado a defender Onyx Lorenzoni, que admitiu ter recebido dinheiro de caixa 2.

“Quanto a esse episódio no passado, ele mesmo admitiu os seus erros e pediu desculpas, e tomou as providências pra reparar”, afirmou o juiz. Então tá combinado, é quase nada, como canta o Peninha.

Para enganar seus trouxas, Bolsonaro lança mão das manobras adversativas: corre para as redes, imitando Donald Trump.

Como o estoque de fake news caiu e apelar para o kit gay ou a mamadeira erótica não rola, ele berra que vai “a abrir a caixa preta do BNDES e revelar ao povo brasileiro o que foi feito com seu dinheiro nos últimos anos”.

JB joga lavagem a seus javalis para eles continuarem grunhindo “Venezuela! Cuba!”.

Uma CPI barulhenta do BNDES, que teve extensa, estúpida e enviesada cobertura da mídia, terminou em março sem pedidos de indiciamento.

Bolsonaro terá que compor e procurar coalizões com a classe da qual fingiu não fazer parte.

Seus eleitores votaram num ditador e encontraram um rebotalho de Michel Temer misturado a restos de taxista, que come pão francês com leite condensado enquanto xinga “comunistas”.

Não corre o menor risco de dar certo.