Bolsonaro perde pouco com a saída de Moro. Por Ricardo Cappelli

Jair Bolsonaro. Foto: MAURO PIMENTEL/AFP

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POR RICARDO CAPPELLI

Muita gente previu que a queda de Mandetta seria desastrosa para Bolsonaro. Não foi o que aconteceu. Ele subiu nas pesquisas. O demitido agora foi outro “ex-super-ministro”. Quem perde mais?

A conta do Capitão é simples. Ele vai perder na classe média o que já tinha perdido com sua postura na crise sanitária. As panelas que se voltaram contra ele estarão agora com Moro.

As pesquisas vêm indicando que ele está crescendo nas camadas populares impulsionado pelo auxílio emergencial. Segundo a CEF, mais de 32 milhões de brasileiros já receberam o benefício. Por tratar-se de uma política com duração limitada, o impacto vai passar? O povo ficará grato pela ajuda? Só o tempo dirá.

A tentativa de impeachment ganhou um aliado de peso. A Globo entrou na campanha. A “Aliança do Coliseu” – coalizão formada pela Globo com setores antinacionais e antipovo da burocracia estatal – é a grande derrotada. Moro vazava tudo para a Globo. A parceria “vem de longe”, diria o saudoso Brizola.

Como fica Moro? O ex-juiz é um personagem medíocre. Fez um discurso errático, fraco, deprimente. É odiado no Congresso. É pouco provável que exista entre os deputados maioria para transformá-lo em herói do impeachment . O congresso não vai querer ficar com a conta da queda, mas a festa em Brasília será de arromba.

A pesquisa XP que testou Bolsonaro e Moro no mesmo cenário, em dezembro de 2019, mostrou que o presidente perde pouco. Sem Moro, alcança 33% das intenções de voto. Contra Moro, recua para 28% e o ex-juiz vai a 15%, empatando com Haddad (16%) e Ciro (13%). Perder 5 pontos para assumir a direção da PF e proteger a família pode ser um custo razoável.

Doria, Caiado, Witzel e Joyce estão em festa. Não será fácil Moro sobreviver na planície até 2022. Ele está cercado de inimigos poderosos por todos os lados. Possui muitos flancos. De toda forma é um poderoso reforço no time da oposição de direita.

O agora ex-ministro fez questão de bater em Lula na sua despedida, deixando claro que sua saída é mais um capítulo da briga entre a direita e a extrema-direita.

A esquerda continua como aquele penetra animado que fica na porta da festa tentando entrar de qualquer jeito. Vai transformar Moro – talvez o mais perigoso agente da inteligência norte-americana no Brasil – em herói nacional do impeachment? O que ele fala contra Lula é mentira, mas o que fala contra Bolsonaro é verdade? Frente Ampla com Moro?

Esta jogada foi mais uma tentativa de recolocar a presidência da República como o poder moderador. Dilma e Temer fragilizaram o executivo, abrindo espaço para a ascensão do judiciário, do legislativo e das corporações. O Capitão tenta recolocar todos dentro das suas caixinhas.

A construção de uma base política com o Centrão, a demissão de Mandetta e o rompimento com a Lava Jato marcam uma nova fase. O presidente chutou parte da classe média e vai tentar se agarrar ao povo. Vai funcionar?

Por isso o próximo alvo parece ser Guedes. O vírus engoliu a agenda fiscalista do ministro da Economia. O presidente vai cair abraçado ao posto Ipiranga? O pró-Brasil está a caminho. Votos ou mercado? A escolha será inevitável.

Bolsonaro é um beócio genocida, mas seus movimentos parecem ser bem orientados. A pauta na sociedade é outra. A agenda da Lava Jato desapareceu. Haveria melhor momento para assumir a PF e se livrar de um concorrente incômodo? Moro saiu. E daí?

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