Bolsonaro surfou a onda do impeachment de Dilma, diz diretor do filme ‘Excelentíssimos’ ao DCM

Douglas Duarte (Foto: Divulgação)

POR LARISSA BERNARDES

O documentário ‘Excelentíssimos’, que estreia nos cinemas no próximo dia 22, retrata a articulação para derrubar a ex-presidenta Dilma Rousseff e o dia a dia do legislativo.

Em entrevista ao DCM, Douglas Duarte, diretor do filme, fala sobre o processo de montagem e as decisões tomadas pela equipe, que chegou em 2015 para gravar o Congresso Nacional e foi tomada de surpresa pelo processo de impeachment.

DCM – Você começou a gravar o filme em 2015 e, na época, o impeachment ainda não estava em discussão. Qual era o plano inicial?

Douglas Duarte – A ideia era fazer um retrato do Congresso Nacional e dos parlamentares para entender quem são esses caras que aparecem no Jornal Nacional por 10 segundos e aí somem. Entender como eles se mexem, como eles pensam, como eles realmente trabalham.

Eu tinha a convicção de que o que a gente via na TV tinha muito mais teatro do que qualquer coisa. Então a gente foi para Brasília um pouco com essa ideia.

Inicialmente, quando a gente viu que a temática do impeachment ia se impor, ficamos com medo disso sequestrar o filme. Mas, na verdade, o que aconteceu foi que o impeachment ajudou a revelar ainda mais o caráter do Congresso que a gente tem, que a gente já tinha 15 anos atrás e talvez continue a ter, só que de maneira mais exacerbada.

Na verdade, o toma lá, dá cá do Congresso continuou funcionando durante o impeachment, as justificativas ridículas para eles fazerem o que queriam continuaram. Só ganhou nova roupagem e ficou mais exposta. Então, o projeto mudou para permanecer coerente com o momento que a gente estava passando no país.

DCM – No início do filme, você comenta que sentiu falta de algo e, por isso, acrescentou a parte com toda a contextualização desde 2014. Como se deu essa mudança?

Douglas – Quando a gente começou a olhar o material, que tem cerca de 200 horas de filmagem, eu comecei a me lembrar de contextos históricos e, assim, tinha muita coisa no material que era difícil de situar para uma pessoa que não estivesse acompanhando assiduamente todas as coisas.

A primeira coisa que me veio à memória foi aquela frase do Aloysio Nunes que ficou notória na época, de que ele “queria fazer a Dilma sangrar”. Então, eu parti atrás desta frase específica, porque “fazer a Dilma sangrar” se parecia bastante com o que estava acontecendo.

Aí eu descobri que esta frase foi dita em um evento da Fundação Fernando Henrique Cardoso e que nesse evento tinham muitas outras frases bastante interessantes. Esse foi o fio da meada.

Foi isso que fez a gente ver que o Carlos Sampaio, diretor jurídico do PSDB, foi quem pediu a auditoria e a recontagem de votos da Dilma em 2014, foi ele também que levou para reconhecer firma do processo de impeachment. Então, a gente começou a encontrar as pegadas do PSDB em todos os lugares que a gente olhava.

Me parecia que essa dimensão do filme não poderia estar de fora. A gente ia fazer um filme que talvez ficasse mais ao gosto dos iniciados em documentário, em cinema de arte, mas a gente estaria deixando de fora uma parte importante da história. Um filme sem isso seria um filme obtuso, meio míope, e eu acho que não seria um filme tão compreendido pelas próximas gerações que vêm aí.

Eu recebi de alguns críticos comentários de quem “ah, todo mundo já sabe” e eu acho que tanto a vitória do Bolsonaro, quanto as reações que eu vejo nas plateias que a gente já teve, pelo contrário, é de muita surpresa. Muita gente não sabe que aquilo aconteceu.

Douglas Duarte durante filmagem no Congresso (Foto: Divulgação)

DCM – Como foi definido o recorte, mais focado na Câmara dos Deputados?

Douglas – A gente chegou a filmar nos dois lugares. Filmamos um pouco com os senadores também, só que sentimos que os senadores são, digamos, mais polidos. Há um filme para se fazer lá, claro, tanto que ‘O Processo’, por exemplo, é feito lá, mas a gente sentiu que o drama estava mais exposto na Câmara. Eu tenho a sensação até hoje de que a batalha foi decidida lá na Câmara e que quando a coisa passou ali no dia 17, ela já estava definida.

DCM – Você mencionou ‘O Processo’, outros filmes sobre o impeachment foram feitos. Existe uma questão de comparação? Como você posiciona o seu filme nesse meio?

Douglas – Quando a gente começou não existia nenhum outro projeto de filme sobre o impeachment, chegamos sozinhos lá em Brasília.

Eu acho muito bom que tenham vários filmes de impeachment, eu acho um buraco horrível para nossa filmografia a gente não ter nenhum filme sobre o ‘diretas já’, um filme sobre a queda do Collor, sobre o governo do Collor.

Então, acho muito bom que a gente possa ter tantas visões diferentes sobre um momento tão importante da nossa democracia, sobre a maior crise que tivemos desde a redemocratização.

Acho que quem quiser voltar a esse período da história do Brasil terá ferramentas para entender o que estava acontecendo.

Quem daqui a 15 anos quiser entender o que estava acontecendo na época não vai precisar recorrer só aos livros de história e nem só a uma narrativa que é muito enviesada nos nossos meios de comunicação.

Acho importante que a gente esteja com um olhar de cinema lá naquele teatro que geralmente é dominado só pela imprensa, com todas as questões que ela tem.

Então, acho que a gente vai ter uma pluralidade de visões muito maior do que a gente teve em outros momentos. Isso é bom para a democracia e bom para o Brasil.

DCM – Você chegou a filmar políticos que hoje têm destaque no cenário político. Especificamente, como foi gravar Bolsonaro?

Douglas – Foi, talvez, o pior dia de filmagem da minha vida. É engraçado que, na época, quando a gente chegou para gravar ele, a gente via o Bolsonaro mais ou menos como vimos nessa eleição o Cabo Daciolo: um personagem bizarro, um deputado que falava coisas ridículas e, enfim, tinha pretensões presidenciais, mas essas pretensões não estavam validadas no mundo real, né?!

Então, a gente foi filmar porque era interessante e o que a gente se deparou no lançamento da pré-candidatura dele, era uma coisa que a gente não esperava. Não era um evento pequeno, não eram pessoas engajadas em uma candidatura que eles achavam que seria nanica. Eles estavam levando aquilo a sério. Aquilo foi o primeiro momento disso que a gente viu acontecer este ano.

Então, de certa forma, quem estava lá para assistir aquilo de olhos limpos, sem os preconceitos de quem já está acostumado a cobrir o Congresso já tem, não vou dizer que viu o que ia acontecer, mas posso dizer com bastante segurança que a equipe do ‘Excelentíssimos’ não se surpreendeu quando o fenômeno Bolsonaro apareceu com a força que teve neste ano. Ele não mudou de natureza, continuou o mesmo, só mudou de proporção.

Cena exclusiva de ‘Excelentíssimos’:

DCM – Você acredita que a eleição dele é a culminação do processo iniciado em 2016?

Douglas – Eu acho que a eleição dele não foi pensada dentro do processo do impeachment, mas é óbvio que é uma consequência da derrubada da Dilma e de todas as forças que se juntaram para derrubá-la. Inclusive ele. Acho que quem parar e ficar reparando nas caras que estão tocando o processo de impeachment, vai encontrar diversas pessoas próximas ao Bolsonaro hoje em dia – Onyx Lorenzoni está em uma contagem de votos, o PSDB até então está tentando chegar ao governo Bolsonaro, Mendonça Filho está cotado para o Ministério da Educação.

Então, não dá para separar o processo de derrubada da Dilma do processo de ascensão do Bolsonaro, tanto é que ele não era ninguém na época da derrubada da Dilma. Ele começou a ganhar atenção nessa época.

DCM – Inclusive, na votação com o discurso dele…

Douglas – Exato. Mas mesmo dois meses antes, quando o presidente Lula foi nomeado ministro pela Dilma e os protestos eclodiram em questão de horas logo depois, o Bolsonaro já estava na frente do Palácio do Planalto protestando, ele recebeu os manifestantes. Então, ele sentiu que poderia surfar esta onda e surfou muito bem.

Enfim, ele está na presidência e os artistas do golpe, quem pensou o golpe e achou que fosse se beneficiar da derrubada da Dilma, não montou esse cavalo. Ele montou.

DCM – Especula-se que a Cultura será uma das áreas mais atingidas pelo governo Bolsonaro. Como você enxerga o futuro da produção audiovisual nacional neste contexto?

Douglas – Se for para fazer uma previsão, acho que a gente está muito malparado. Os sinais que o Bolsonaro já deu é que ele quer controlar conteúdos que o governo tenha interesse e bote dinheiro.

Ele já deixou claro que quer acabar com o Ministério da Cultura, e ele não parece ser a pessoa mais democrática do mundo que tolera qualquer opinião. Então, não sei como será a reação dele a filmes como este, a este filme, especificamente, mas eu acho muito difícil que a gente mantenha uma cultura como a que temos hoje – politicamente plural e sem intervenção no tipo de conteúdo que se faz.

DCM – Você teme por boicotes ao seu filme?

Douglas – Não sei… Na verdade, o documentário brasileiro já sofre boicote desde sempre, então não é uma realidade totalmente nova para um documentário. Mas, enfim, boicotes expressos, assim como houve com a exposição ‘Queer Museu’, não sei se vão acontecer. Vamos ver. Se aparecer, vamos ter que dialogar com isso.

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