Os Bolsonaros perdedores esculhambaram até com a extrema direita. Por Moisés Mendes

Atualizado em 1 de novembro de 2026 às 20:02
Jair Bolsonaro com Eduardo e Flávio Bolsonaro
Jair Bolsonaro. Foto: Reprodução

Alguém poderia fazer pela família Bolsonaro o que o ativista político e escritor gaúcho Cláudio Antônio Weyne Gutiérrez fez por parte das memórias da luta clandestina contra a ditadura. Alguém de dentro do golpismo precisa contar o que foi a estrutura montada em torno dos Bolsonaros, mas com as liberdades do humor, do escracho e do folclore político.

Que se inspire no relato de Gutiérrez, autor de ‘A Guerrilha Brancaleone’, publicado no fim dos anos 90 e reeditado pela Sulina em 2022. O livro conta as aventuras de um grupo de estudantes que se juntam nos anos 60 e 70, sem vínculos com as grandes organizações da época, para peitar a ditadura com o que consideravam ser ações de guerrilha.

Há relatos de bravura e de perdas trágicas, como o desaparecimento do estudante Luiz Eurico Tejera Lisbôa, assassinado pelos militares em 1972. Mas o que prevalece é o humor e as histórias dos tropeços dos ‘guerrilheiros’, abordadas com certa zombaria.

O que Gutiérrez faz é contar, sob o ponto de vista de homens que ficaram maduros, o que aqueles guris e gurias faziam como brancaleones. O cinema, a literatura, o teatro e todas as artes estão repletas desse tipo de relato.

É o que falta ao bolsonarismo. A folclorização do fascismo é o que poderá sobrar do núcleo que reuniu gente de todo tipo e entra agora em processo de degradação. Eduardo e Flávio são hoje figuras muito mais próximas da comédia do que do drama.

Eduardo pede que fuzileiros navais americanos invadam o Brasil e grita pela internet para que os povos do mundo se levantem contra a derrota do irmão. Com Paris em chamas, Eduardo quer que os europeus olhem para o Brasil.

Flávio foge e tem, como primeira grande ideia, produzir um manifesto com a ajuda do ChatGPT. Declara-se presidente dos Estados Unidos do Brazil com ‘z’, com uma designação para o país e um brasão que nem a ditadura queria mais.

Na declaração mais recente, Flávio disse que voltará a disputar uma eleição para presidente antes de 2030, porque Lula irá cair logo. O pai dele, desde muito antes de tentar estourar uma tornozeleira, é uma figura folclórica.

Mas as organizações de mídia continuam tratando todos eles como protagonistas da política brasileira, sempre com a tentativa de criar equivalências entre a família e Lula, ou entre a família e quaisquer outros democratas.

Folha, Globo e Estadão se esforçaram para que a família Bolsonaro fosse vista como uma estrutura política ‘normal’. O pai e os filhos, com participação coadjuvante de Michelle nessa área do mundo paralelo da extrema direita, vieram até aqui porque os jornalões, o centrão, a Faria Lima, as elites e a OAB os acolheram como capazes de derrotar Lula.

Todos conhecem os currículos do pai e dos filhos e dos líderes que os cercam. São conhecidas suas crueldades e as atitudes fascistas e até neonazistas de muitos deles, alguns já condenados como supremacistas.

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Flávio ao lado de imagem de Jair Bolsonaro. Imagem: reprodução

Mas falta enxergá-los como figuras grotescas incapazes de sustentar os personagens que tentaram representar, como aberrações do teatro do extremismo. Os Bolsonaros são figuras na busca desesperada pela força literária e artística dos grandes bandidos da política.

Mas o que sobra deles hoje, por rejeição da própria direita, é a folclorização das suas falas e atitudes. Os Bolsonaros perderam duas eleições e perderam um golpe. São personagens ridículos que produzem um vexame por dia.

Os guerrilheiros brancaleones do livro de Gutiérrez foram sendo conduzidos à certeza de que não tomariam o poder. Mas os Bolsonaros continuam interpretando seus papéis, com a ajuda de Trump.

Alguém de dentro da extrema direita, e pode ser um dissidente criativo, precisa contar a história de uma família violenta, cruel, mentirosa e trapalhona. Os Bolsonaros tropeçam nos cadarços até quando estão descalços.

Moisés Mendes
Moisés Mendes é jornalista em Porto Alegre, autor de “Todos querem ser Mujica” (Editora Diadorim) - https://www.blogdomoisesmendes.com.br/